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Correio da Manhã

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Putin cede poder ao ‘escolhido’ Medvedev

Dmitry Medvedev, o discreto advogado de São Petersburgo que há relativamente pouco tempo era um perfeito desconhecido para a maior parte dos russos, toma hoje posse como presidente da poderosa Federação Russa, por entre inúmeras dúvidas quanto à real extensão do seu poder. Na sombra estará sempre Vladimir Putin, que amanhã assume formalmente a chefia do governo e que para muitos analistas continuará a ser o verdadeiro poder da Rússia.
7 de Maio de 2008 às 00:30
Dmitry Medvedev (à esq.) sucede hoje a Vladimir Putin na presidência russa
Dmitry Medvedev (à esq.) sucede hoje a Vladimir Putin na presidência russa FOTO: Sergei Karpukhin / Reuters

Designado pelo próprio Putin como seu sucessor – e apesar da legitimidade que lhe foi conferida pelo voto popular – Medvedev continua a ser uma incógnita em termos políticos. A sua plataforma eleitoral teve como base a continuação das políticas seguidas por Putin nos dois mandatos à frente do Kremlin – crescimento económico e fortalecimento da soberania interna e externa da Rússia. Fora isso pouco se sabe sobre as suas prioridades ou sobre a sua relação futura com um governo liderado pelo mentor político.

Alguns analistas afirmam que Medvedev tentará distanciar-se do antecessor e estabelecer um estilo próprio de governação, mas a esmagadora maioria garante que será Putin quem continuará, na sombra, a segurar as rédeas do poder.

A Constituição russa é clara quanto às competências do presidente e do primeiro-ministro, mas o certo é que nos últimos meses como presidente Putin aprovou várias alterações legislativas destinadas a reforçar os poderes do chefe de governo. Até agora, por exemplo, os governadores e presidentes das regiões e repúblicas da FederaçãoRussaprestavam contasaopresidente; agora, na sequência de um decreto assinado por Putin, passarão a fazê-lo aoprimeiro-ministro, que a partir de amanhã será o próprio Putin.

Crucial para avaliar até que ponto as coisas vão mudar será a escolha dos futuros membros do gabinete de Medvedev. "O peso das pessoas próximas de Medvedev e dos seus cargos na administração presidencial determinarão até que ponto Putin irá continuar a controlar a situação", afirma o analista político Pavel Salin. Ou seja, se Medvedev conseguir nomear os seus aliados para os cargos mais importantes da administração terá mais autonomia. Se, pelo contrário, esses cargos forem preenchidos por membros da ala dura leal a Putin, então é certo que será o ex-presidente a conduzir de forma indirecta os destinos da Rússia. Neste contexto, dois cargos assumem especial importância: o de director do FSB (os serviços secretos russos) e o de chefe da administração presidencial. São os cargos mais importantes da administração a seguir ao presidente e podem constituir um importante indicador sobre a direcção que Medvedev pretende seguir.

A IMPORTÂNCIA DOS SOLIVIKI

Um dos factores cruciais para avaliar a influência que Putin terá sobre o futuro presidente será a presença dos seus lealistas – conhecidos como os siloviki – na futura administração presidencial liderada por Dmitry Medvedev. Oriundos, tal como Putin, dos serviços de informações, os siloviki constituíam a ala dura do gabinete presidencial cessante e certamente reterão alguma influência na administração de Medvedev – a extensão dessa influência será avaliada pelos cargos que nela irão ocupar. Os analistas estão particularmente curiosos para saber quais serão os futuros cargos do vice-chefe da administração presidencial de Putin, Igor Sechin – tido como o líder informal dos siloviki – e do actual ministro da Economia, Alexei Kudrin, um dos grandes responsáveis pelo crescimento económico russo dos últimos anos. Por outro lado, é igualmente aguardada com expectativa a ascensão de alguns elementos próximos de Medvedev, incluindo o actual vice-primeiro-ministro Sergei Ivanov – um dos principais rivais dos siloviki na administração cessante. "A lista [de nomeações] já existe, mas apenas duas pessoas sabem quem dela faz parte", afirmava ontem fonte próxima do Kremlin.

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