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“Quando soube pensei no pior”

O jornalista português Vítor Gonçalves (RTP) preparava-se para começar o seu último dia de trabalho no Haiti quando um novo sismo, de 6,1 graus na escala de Richter, abalou o país. Eram 06h03 de ontem (11h03 em Lisboa). Estava com o repórter de imagem Carlos Pinota, ficou "muito assustado" correu para a varanda do 1º andar do Hotel Plaza e atirou-se, por "impulso", para a rua, de uma altura de cinco metros.
21 de Janeiro de 2010 às 00:30
Pilhagens nas ruínas dos edifícios da devastada capital do Haiti
Pilhagens nas ruínas dos edifícios da devastada capital do Haiti FOTO: logan Abasi/Reuters

Vítor Gonçalves, de 40 anos, sofreu um traumatismo cranioencefálico, diversos ferimentos nos braços e uma fractura num pé. Esteve sempre consciente e foi transportado para o hospital de campanha da ONU em Port-au-Prince, onde foi assistido. A família do jornalista, residente em Vila Boa, Sátão, soube do acidente cinco minutos antes dos noticiários das 13h00, por intermédio da colega e "grande amiga" Judite de Sousa. "Ela telefonou sobretudo para sossegar a família, a pedido do Vítor", contou ao CM Maria do Carmo Gonçalves, irmã do jornalista, que teve "muito cuidado" a dar a notícia à mãe. Isabel Gonçalves, de 78 anos, ficou "muito assustada" e não descansa enquanto não falar com o filho.

"Só vou ficar sossegada quando ouvir a voz dele. Quando me falaram em acidente pensei logo o pior, mas felizmente tudo não passou de um grande susto, mais um que ele apanhou", referiu Isabel Gonçalves. A família só soube que ele tinha ido para o Haiti quando o viram na televisão. "Nos primeiros dias disse que lhe custou muito ver tantos mortos e miséria, mas agora já estava habituado", adiantou a mãe, que já falou com a nora e os dois netos que vivem em Washington.

Sobre os efeitos dos sismos, "o cenário é de total destruição, é desolador", descreveu ao CM António Saroca, 56 anos, chefe da equipa de logística da missão portuguesa no Haiti, ao serviço da Autoridade Nacional de Protecção Civil. O seu trabalho consiste em "prestar apoio às vítimas, ao nível hospitalar, com médicos e enfermeiros e, no final, montar um campo de deslocados com capacidade para 400 pessoas, e as respectivas instalações sanitárias".

PORMENORES

NOS EUA

Na RTP desde 1992, Vítor Gonçalves é o actual correspondente da estação pública em Washington (EUA)

LIVRO POLÍTICO

O jornalista é autor do livro ‘A Agenda de Cavaco Silva’ sobre a política e o pensamento do Presidente.

SUBSTITUTO

José Rodrigues dos Santos partiu ontem para o Haiti. A substituição estava prevista antes do acidente.

DISCURSO DIRECTO

"ESTAMOS MUITO TRISTES": Judite de Sousa, directora adjunta de Informação da RTP

Correio da Manhã – Como é que foi o acidente do Vítor Gonçalves?

Judite de Sousa – Ele estava no hotel com o operador de câmara, onde também se encontrava a CNN, e sofreu um acidente na sequência do novo sismo. Estamos muito tristes.

– Como é que ele está?

– Está bem, eu falei com ele, mas tem uma fractura no pé e ferimentos na cabeça. O Carlos felizmente não sofreu nada.

– Vai regressar a Portugal ou EUA?

– A RTP está a fazer todos os esforços junto das autoridades para se criarem as condições de o evacuarem para os EUA.

– Como define o Vítor Gonçalves?

É uma excelente pessoa, um excelente profissional. Foi o primeiro jornalista português a chegar ao Haiti e graças a ele e ao operador de imagem a RTP tem conseguido grandes reportagens.

CÃO-BOMBEIRO PORTUGUÊS FEZ BUSCAS NOS HAITI

Chama-se Eicko e é da raça boxer, o cão-bombeiro português que,de sexta a segunda-feira passadas, participou, com o seu treinador, Marco Saraiva, em acções de busca e salvamento na cidade de Port-au--Prince. Em declarações ao CM, Marco Saraiva, que já se encontra na República Dominicana, de regresso a Portugal, disse que a missão "foi um pouco inglória, já que, por muito que os cães procurassem e detectassem corpos, não havia meios mecânicos de remoção dos escombros". De resto, o relato deste português que, com o seu cão, integrou uma ONG espanhola, não difere muito do que se tem ouvido: "Encontrei uma devastação nunca vista. A morte está por todo o lado, com cadáveres espalhados pelas ruas, sem qualquer dignidade."

BEBÉ COM QUINZE DIAS RETIRADA SÃ E SALVA DE UM BURACO

Oito dias após o terramoto, ainda acontecem milagres no Haiti. Uma bebé de apenas 15 dias e uma criança de cinco anos foram ontem retiradas dos escombros.

Elizabeth perdera o rasto da filha, Elisabeth Filema, desde que o terramoto fizera desabar a sua casa. Ontem, equipas de socorro francesas resgataram a menina, sem ferimentos, de um pequeno buraco graças ao apurado faro de Putsy, um cão pastor belga. Uma outra criança, de cinco anos, foi também ontem encontrada viva.

Natalie Lozama, 26 anos, foi retirada dos escombros de um supermercado. Feliz, cantava enquanto a levavam para a ambulância. E Ena Zizi, de 69 anos, agradeceu a Deus quando a retiraram dos escombros da catedral.

"ACORDEI COM O NOVO SISMO": Ana Estrada, Psicóloga portuguesa no Haiti

Eu estava a dormir quando ocorreu este novo sismo. Acordei e vi um colega a sair em pânico para a rua e a gritar, com as mãos na cabeça: "Estou a ficar paranóico. O sismo aconteceu mesmo ou foi imaginação minha?" Eu fiquei sentada, à espera de ver o que acontecia. Se houvesse novo abalo, ia para debaixo da mesa. Pouco depois, fui apanhar o voo para a República Dominicana, onde vou visitar feridos que estão sem apoio psicológico.

Em Port-au-Prince a ajuda começa a ser distribuída, embora exista alguma descoordenação. Não podemos esquecer-nos de que os chefes desta missão da ONU acabaram por falecer no terramoto e os que vão substitui-los acabaram de chegar. Tentamos fazer o nosso melhor. Ainda ontem recebi uma SMS, de uma pessoa que não conhecia, a dizer que estavam um adulto e uma criança vivos num endereço que me enviou. "Veja lá o que pode fazer por mim", pediu-me. Entrei em contacto com uma equipa de resgate e soube que essas pessoas foram salvas. É sempre gratificante saber que consegui salvar vidas. E também estou a contribuir para a prevenção do stress traumático, o que é importante porque uma população traumatizada não cresce, não produz.

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