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Quatro em cada 10 jovens receiam ter filhos devido às alterações climáticas, revela estudo

Jovens acreditam que os governos negligenciam a crise climática.
Correio da Manhã 14 de Setembro de 2021 às 18:10
Jovens protestam em Washington DC pela defesa da crise climática no 'Sunrise Movement', em junho
Jovens protestam em Washington DC pela defesa da crise climática no 'Sunrise Movement', em junho FOTO: Reuters
Quatro em cada 10 jovens em todo o mundo receiam ser pais devido às consequências da crise climática e temem que os governos estejam a agir fracamente para reverter a situação, segundo aponta o maior estudo científico alguma vez realizado sobre ansiedade climática e jovens, pré-publicado esta terça-feira, pela revista Lancet Planetary Health.

Segundo o estudo "Vozes da juventude sobre a Ansiedade Climática, Traição do Governo e Injúria Moral: um Fenómeno Global", que recolheu a opinião de jovens em 10 países, quase seis em cada 10 jovens entre os 16 e os 25 anos, estão muito ou extremamente preocupados com a crise climática. Um número idêntico de jovens sente-se "traído" pelas gerações mais velhas e afirma que os governos não os protegem. Nem ao planeta, nem às gerações futuras, perante a ameaça climática, noticiou o jornal The Guardian.

Três quartos corroboram a afirmação "o futuro é assutador" e mais de metade tem a sensação que terá menos oportunidades do que os seus pais. Os jovens ativistas afirmam que o sentimento de ansiedade climática é geral na sua geração.

Luisa Neubauer, ativista de 25 anos, co-organizadora do movimento de greve estudantil na Alemanha que, por ordem judicial, levou o governo alemão a reavaliar as suas políticas climáticas, afirma: "Conheço muitas meninas, que perguntam se ainda faz sentido ter filhos. É uma pergunta simples, mas diz muito sobre a realidade climática em que vivemos. Nós, jovens, percebemos que apenas haver preocupação com a crise climática, não vai impedi-la. Por isso, transformámos a nossa ansiedade individual numa ação coletiva. E agora, lutamos em todos os lugares: nas ruas, nos tribunais, dentro e fora de instituições, em todo o mundo. No entanto, os governos ainda falham para connosco, já que as emissões estão a escalar para níveis nunca antes vistos. A resposta apropriada a este estudo seria os governos começarem a agir como prometeram que fariam".

Mitzai, de 23 anos, natural das Filipinas, afirmou: "Cresci com medo de me afogar no meu próprio quarto. A sociedade diz-me que essa ansiedade é um medo irracional e que precisa de ser superado, que a meditação e mecanismos saudáveis de superação irão consertar o que sinto", acrescentou ainda que, "no seu cerne, a nossa ansiedade climática vem do sentimento profundo de traição por causa da falta de ação do governo. Para realmente abordar a crescente ansiedade climática, precisamos de justiça."

Caroline Hickman, co-autora principal do estudo afirma que "este estudo pinta um quadro horrível da ansiedade climática generalizada nas crianças e jovens. Sugere, pela primeira vez, que os altos níveis de sofrimento psicológico da juventude estão ligados à inação do governo. A ansiedade dos nossos filhos é uma reação totalmente racional, dadas as respostas inadequadas dos governos às mudanças climáticas. O que precisam os governos de ouvir mais para agir?"

François Hollande, que era presidente de França quando o acordo de Paris foi aprovado em 2015, pediu aos líderes reunidos em novembro na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia, que tomassem a seguinte nota: "Seis anos após o acordo de Paris, devemos abrir os olhos para a violência das mudanças climáticas, para o seu impacto no nosso planeta, mas também para a saúde mental dos nossos jovens, como mostra este estudo alarmante. Devemos agir com urgência e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para dar um futuro às gerações mais jovens ". 

O estudo foi pré-publicado pela revista Lancet Planetary Health, enquanto se encontra sob revisão por pares. A pesquisa analisou a opinião de cerca de 10 mil jovens em países como Portugal, França, Reino Unido, Finlândia, Austrália, Filipinas, índia, Nigéria, Estados Unidos e Brasil.
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