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Correio da Manhã

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Turquia: “Que os meus filhos sejam os últimos”

Pai do menino que se tornou no símbolo do drama explica tragédia.
A.P. e Ricardo Ramos 4 de Setembro de 2015 às 08:41
O corpo  do pequeno Aylan numa praia turca
O corpo do pequeno Aylan numa praia turca FOTO: nilufer demir/reuters

Uma onda virou o barco. Agarrei a mão da minha mulher, mas já não consegui segurar os meninos. Escorregaram-me das mãos." É com lágrimas nos olhos que Abdullah Kurdi recorda os momentos terríveis em que o barco em que tentavam chegar à ilha grega de Kos se virou, na terça-feira à noite, levando-lhe a mulher e os dois filhos, de 3 e 5 anos. A foto do corpo de Aylan, o mais novo, numa praia turca correu o Mundo e chocou as consciências daqueles que até agora apenas viam a crise migratória como um problema abstrato e longínquo.

Foi um homem destroçado aquele que ontem se deslocou à morgue de Bodrum, na Turquia, para reconhecer os corpos dos filhos, Aylan e Galip, e da mulher, Rehan, de 35 anos. Em vez de uma nova vida no Canadá, para onde tencionava imigrar com a família, Abdullah tem agora três caixões para levar de volta a Kobane, a cidade- -mártir curda no norte da Síria, que abandonou há mais de um ano para fugir aos jihadistas do Estado Islâmico.

À sua espera no Canadá, Abdullah tinha uma irmã, que lhe pagava a renda na Turquia enquanto tentava agilizar o pedido de asilo, repetidamente recusado pelo governo. Desesperado, Abdullah decidiu fazer como tantos outros refugiados e recorrer aos traficantes para chegar à Europa, convencido de que daí seria mais fácil partir para o Canadá. Pagou 2050 euros por cabeça – 8200 euros no total – para embarcar com a família num barco de borracha, que ainda não tinha partido há 5 minutos e já estava a meter água. "O traficante atirou-se ao mar e eu ainda tentei tomar conta do leme, mas veio outra onda e o barco virou-se", conta Abdullah.

Sobre a foto do filho, espera que ajude a despertar consciências e a impedir que outras crianças tenham o mesmo destino. "Que as mortes dos meus filhos sejam as últimas", pede Abdullah.

"Ele tinha a carreira militar no sangue" 
Mário Nunes, de 21 anos, estava na Base Aérea de Beja, a trabalhar na messe, quando decidiu desertar da Força Aérea e ir lutar contra terroristas na Síria. "Ele teve sempre no sangue a carreira militar", revelou ontem ao CM o pai do jovem, cabo da GNR em Portalegre, que revelou não falar com o filho "há mais de um ano".

Foi, aliás, o pai de Mário Nunes quem assinou o termo de responsabilidade para que o filho pudesse ingressar na Força Aérea, apenas com 17 anos. Mário, que nasceu em Portalegre, viveu alguns anos da infância e juventude em Sagres, onde residem a mãe e a avó e, mais recentemente, a irmã. Os pais estão separados. "Ele era um menino vivo e inteligente que frequentou aqui a escola. Era bom aluno", contou ao CM José Boaventura, vizinho da família, que afirmou estar "satisfeito" por saber que a ida do jovem para a Síria "foi para lutar contra os terroristas".

O CM tentou falar com a mãe e a avó de Mário, que se escusaram a prestar declarações, invocando razões de saúde.
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