Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
9

Quiseram matar-me

Fernando Araújo, líder do Partido Democrático (PD) de Timor Leste, segundo maior partido do país e o principal da oposição, está há mais de um mês escondido no interior do território, longe da cidade de Díli.
14 de Junho de 2006 às 00:00
No meio das acusações entre políticos, a população desespera. Só crianças têm esperança
No meio das acusações entre políticos, a população desespera. Só crianças têm esperança FOTO: António Dasiparu/EPA
“Avisaram-me que o primeiro-ministro me queria matar. A minha família foi para a Austrália e vim para longe”, disse ao CM, numa entrevista telefónica a partir da localidade onde se encontra.
“Saí da capital no final de Abril, quando começaram a surgir informações de que a oposição ia ser um alvo. A minha casa foi queimada e comecei a receber mensagens de todo o Timor segundo as quais o primeiro-ministro tinha ordenado a polícias e a civis que me matassem”, relatou Fernando Araújo, líder do PD, segunda força política timorense que detém sete dos 88 lugares do Parlamento. “A minha mulher e o meu filho foram para a Austrália, mas eu fiquei. Não me posso ir embora, sou líder do segundo maior partido.”, diz Araújo.
A sua mulher, Jacqueline Siapno, é professora de política na Universidade de Melbourne e publicou, a 1 de Junho, na página de internet do Instituto Nautillus, um artigo com o título “Nós tínhamos uma casa em Díli”, no qual considera Mari Alkatiri e alguns líderes das Forças de Defesa de Timor Leste responsáveis pela crise no país. “Armaram civis e aterrorizaram as populações que deviam proteger”, escreve Jacqueline Siapno.
AMEAÇAS NÃO DIRECTAS
Escondido no interior, Fernando Araújo diz que nunca foi ameaçado directamente, mas que através de amigos sabe que o querem “eliminar”. “Há três dias, um oficial de polícia disse a um amigo meu que tinha ordens do primeiro-ministro para me encontrar e matar”, conta o líder do PD, que admite regressar a Díli nas próximas semanas, mas por pouco tempo, “só para estar com algumas pessoas”. “Alkatiri já foi exposto, já se sabe que ele distribuiu armas aos civis. Quem as recebeu já confessou e revelou qual era o objectivo”, diz.
O CM tentou ontem, sem sucesso, contactar o gabinete do primeiro-ministro timorense para obter uma reacção às declarações de Fernando Araújo. No entanto, na semana passada, Mari Alkatiri negou ter entregue armas a civis e disse estar a ser vítima de uma campanha de “diabolização”.
PORTUGAL PODE REFORÇAR PRESENÇA
O ministro da Administração Interna, António Costa, disse ontem que o governo português está disponível para reforçar a presença da GNR em Timor, caso seja solicitado pela ONU. Refira-se que o Conselho de Segurança da ONU começou ontem a discutir a situação de Timor e deverá prolongar a missão da UNOTIL.
“Caso venha a ser criada uma missão da ONU, estamos disponíveis para reforçar os efectivos da GNR em Timor”, disse o ministro, que recordou que a área de acção da GNR será progressivamente alargada.
A posição de António Costa surgiu na sequência da carta dirigida pelo chefe da diplomacia timorense, Ramos Horta, ao Conselho de Segurança, na qual considera imprescindível a presença da GNR numa missão da ONU. Anteriormente, dirigentes timorenses enviaram uma carta ao secretário-geral da ONU pedindo o envio “o mais rápido possível” de uma força policial para o país.
MAIS DESENVOLVIMENTOS
XANANA FALA
Xanana Gusmão dirige-se hoje aos deputados naquela que será a sua primeira intervenção desde que chamou a si o controlo das áreas de defesa e segurança do país. Xanana tem tido também reuniões com os rebeldes.
CONDENAÇÃO
Uma resolução a condenar a violência em Timor foi ontem aprovada por maioria pelo Parlamento, numa iniciativa de deputados do partido maioritário, a Fretilin. A resolução defende que a GNR actue em Díli.
MAIS ATENÇÃO
Os deputados europeus portugueses consideram que a comunidade internacional deve prestar particular atenção à situação em Timor, reclamando o reforço do papel das Nações Unidas e mais apoios da União Europeia.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)