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Correio da Manhã

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Receio e esperança

Entre o receio do que poderá vir a acontecer após a divulgação dos resultados eleitorais e a esperança de uma vida melhor, em paz e estabilidade, mais de 538 mil guineenses vão hoje às urnas na segunda volta das eleições presidenciais, num acto que fecha desta forma o chamado período de transição iniciado após o último golpe de Estado, em Setembro de 2003, que destituiu Kumba Ialá da presidência.
24 de Julho de 2005 às 00:00
A votação permitirá os guineenses escolher o sexto chefe de estadoo em 32 anos de independência
A votação permitirá os guineenses escolher o sexto chefe de estadoo em 32 anos de independência FOTO: Manuel de Almeida (Lusa)
Os guineenses vão escolher o futuro chefe de Estado entre os candidatos Malam Bacai Sanhá, apoiado pelo Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC, no poder) e João Bernardo ‘Nino’ Vieira, independente. As 2210 assembleias de voto espalhadas pelas nove regiões do país vão estar hoje abertas entre as 07h00 e as 17h00 (entre as 08h00 e as 18h00, em Lisboa).
Ao longo dos 15 dias de campanha registaram-se confrontos, insultos, e até uma tentativa de assalto ao Ministério da Administração Interna que causou dois mortos. Os insultos foram dos mais variados nos meios de comunicação social guineenses, desembocando, nalguns casos, em actos de violência entre apoiantes de Malam Bacai Sanhá e de ‘Nino’ Vieira.
Mas o caso mais grave foi a tentativa de assalto ao Ministério da Administração Interna ocorrida no passado dia 16, precisamente a meio da campanha, cujos contornos estão ainda longe de ser esclarecidos, pois as explicações avançadas pelo respectivo ministro, Mumine Embaló, foram inconclusivas.
No incidente morreram dois elementos dos Serviços de Informação do Estado (SIE, serviços secretos) e um terceiro ficou ferido sem gravidade, tendo as autoridades detido quatro dos assaltantes, todos militares. Os dois candidatos – Bacai Sanhá e ‘Nino’ Vieira – os mais votados na primeira volta, percorreram o país de lés-a-lés e, dada a renhida disputa, os ânimos exaltaram-se entre os respectivos apoiantes.
Os apelos nacionais e internacionais para a calma e tranquilidade não se fizeram esperar. As Nações Unidas, União Europeia, Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e também o presidente guineense cessante, Henrique Rosa, apelaram para a maturidade da população e sobretudo dos políticos. Henrique Rosa afirmou inclusivamente que em democracia o sucesso do vencedor “não deve significar a exclusão do vencido”.
Em 32 anos de independência, a Guiné-Bissau foi presidida por cinco chefes de Estado, dois deles interinos: Luís Cabral (1973/80), ‘Nino’ Vieira (1980/98), Bacai Sanhá (1998/2000, interino), Kumba Ialá 2000/03) e Henrique Rosa (desde Setembro de 2003, interino).
Desde que a Guiné-Bissau realizou eleições presidenciais, nunca qualquer dos presidentes eleitos – ‘Nino’ Vieira, em 1994, e Kumba Ialá, em 2000 – chegaram ao fim do mandato, pois foram derrubados na sequência de golpes de Estado.
BACAI SANHÁ
Candidato do PAIGC, no poder, licenciado em Ciências Políticas, 58 anos, foi presidente interino da Guiné-Bissau entre 1998/2000, cargo que ocupou interinamente na sequência do afastamento de ‘Nino’ Vieira. De 1994 a 1998 liderou o Parlamento. Foi derrotado nas últimas presidenciais à segunda volta, com 28 por cento dos votos. Em Março passado foi escolhido pelo PAIGC, de que é apenas militante, como candidato às eleições presidenciais.
'NINO' VIEIRA
Tem 66 anos e foi presidente da República da Guiné-Bissau entre 1980 (depois do golpe de Estado que derrubou o primeiro presidente guineense, Luís Cabral) e 1998, altura em que foi afastado na sequência do conflito militar de 1998/99. Após este conflito, exilou--se em Portugal, em Vila Nova de Gaia, regressando em Maio deste ano a Bissau para se recensear e apresentar a sua candidatura às eleições presidenciais como candidato independente.
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