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Correio da Manhã

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REFÉNS MORTOS PELO GÁS RUSSO

Um responsável médico russo revelou ontem que pelo menos 116 dos 117 reféns mortos no assalto das forças especiais russas ao teatro ocupado pelos rebeldes tchetchenos foram vitimados pelo misterioso gás usado pelas autoridades para “incapacitar” os terroristas.
28 de Outubro de 2002 às 09:04
As dúvidas iniciais quanto a eventual massacre químico desfazem-se: centenas de civis foram gaseados numa operação militar cujo objectivo único era resgatá-los. O Kremlin recusa pronunciar-se mas, depois das felicitações iniciais pelo “sucesso” do ataque, a comunidade internacional inquieta-se e o presidente russo, Vladimir Putin, sai da crise cada vez mais fragilizado.

Andrei Seltsovsky, chefe dos serviços sanitários de Moscovo, confirmou ontem que, dos 117 reféns mortos durante o assalto das forças especiais ao teatro, apenas um foi vitimado por disparos. Todos os outros morreram “devido aos efeitos da exposição ao gás”, afirmou. Fontes médicas citadas pela agência Interfax indicaram hoje que 239 reféns já abandonaram os hospitais moscovitas onde foram assistidos, permanecendo hospitalizadas 405 pessoas, 145 das quais nos cuidados intensivos, sendo que 45 estão em estado considerado crítico.

O Governo russo mantém o silêncio quanto ao tipo de gás usado pelas forças especiais, limitando-se a adiantar que se tratou de uma “substância incapacitante”. Os poucos feridos que já tiveram alta dos hospitais dizem que sofreram tonturas, náuseas e perda de memória, sintomas que poderão ter sido provocados por vários agentes químicos ou alucinogénicos.

Novo ‘sequestro’

A maior parte dos feridos continuam incomunicáveis no hospital, impedidos de receber visitas, o que fez aumentar ainda mais as suspeitas dos familiares, que já acusam as autoridades de estarem a cometer “um novo sequestro”.

A comunidade internacional, que no sábado foi rápida a congratular o presidente Vladimir Putin pelo êxito da operação de resgate, começa a mostrar sinais de inquietação face à recusa das autoridades em revelar qual foi a substância usada. Os EUA e a Holanda - país que tem uma cidadã entre as vítimas mortais do gás - já pediram explicações ao governo russo e a Amnistia Internacional exigiu a abertura de um inquérito independente à actuação das forças russas.

‘Substância incapacitante’

Gás de nervos, alucinogénico, ou sonífero? Face à recusa das autoridades russas em identificar a “substância incapacitante” usada no assalto ao teatro, que terá provocado a morte a pelo menos 116 reféns, peritos em armas químicas apontam várias possibilidades, como a do uso de gás sarin ou do alucinogénico BZ.

Reféns que receberam alta do hospital revelaram ter ouvido os médicos a comentar a possibilidade de ter sido usado sarin, um gás de nervos tornado célebre quando foi usado por uma seita religiosa num ataque contra o metropolitano de Tóquio, em 1995.

Já Michael Yardley, um perito britânico citado pela BBC, aponta o alucinogénio BZ como a substância provavelmente usada, devido aos sintomas descritos pelos reféns - desmaios, arritmias, náuseas e dificuldade em caminhar. Este potente alucinogénico, usado pelos EUA na Guerra do Vietname, é incolor, inodoro e tem propriedades paralisantes e alucinogénicas.

Outros peritos falam também no possível uso de um potente sedativo, como Valium, enquanto um analista de Defesa russo, Pavel Felhengauer, fala num “composto psicadélico” desenvolvido em segredo pelo Exército russo durante a Guerra Fria.
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