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Reforço do controlo chinês em Hong Kong inquieta Macau

Antigo território português acompanha com apreensão avanço da nova lei de extradição.
Ricardo Ramos 14 de Junho de 2019 às 09:25
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Antigo território português acompanha com apreensão avanço da nova lei de extradição.
A população de Macau está a acompanhar com crescente apreensão a situação na vizinha Hong Kong, onde a intenção do Executivo local em introduzir uma nova lei que permite a extradição de suspeitos para a China deu origem aos maiores e mais violentos protestos desde o fim da soberania britânica.

Macau teme ser o próximo território a ver ameaçadas as liberdades e garantias previstas na fórmula ‘um país, dois sistemas’ implementada nas duas regiões após a transferência da soberania para Pequim há duas décadas.

"Devemos estar preocupados com o que está a acontecer em Hong Kong", defendeu o deputado macaense Sulu Sou, vice-presidente da Associação Novo Macau, em declarações ao jornal ‘Ponto Final’.

A Associação, diz, está "profundamente preocupada e muito apreensiva", com as tentativas do governo de Hong Kong para aprovar a nova lei de extradição e teme que Macau "possa ser o próximo".

No domingo, vários ativistas macaenses participaram na gigantesca manifestação que juntou mais de um milhão de pessoas nas ruas de Hong Kong contra a nova lei e, na quarta-feira, várias lojas da antiga colónia portuguesa fecharam as portas em sinal de solidariedade com os manifestantes que bloquearam os acessos ao Conselho Legislativo de Hong Kong e enfrentaram a Polícia para travar a discussão da legislação que, alegam, irá permitir que críticos e dissidentes sejam extraditados para a China para serem julgados por uma Justiça opaca e politizada, frequentemente acusada de violações dos direitos humanos, incluindo tortura, confissões forçadas e detenções arbitrárias.

O Executivo de Hong Kong alega que a nova lei é necessária para evitar que o território se transforme num ‘santuário’ para criminosos fugidos da China continental.

Manifestantes prometem manter a mobilização
A situação em Hong Kong era ontem mais tranquila após os violentos confrontos de quarta-feira, mas em algumas ruas ainda havia barricadas e os manifestantes mantêm a mobilização e garantem que estão prontos para voltar a sair à rua para travar uma lei que dizem colocar em risco as suas liberdades e garantias democráticas.

Para já, os ativistas obtiveram uma pequena vitória com o adiamento por tempo indeterminado da votação da nova lei de extradição para a China, que alegam que poderá ser usada para perseguir críticos e dissidentes, mas o governo já garantiu que não abdica da legislação e tenciona voltar a submetê-la a discussão no Conselho Legislativo dentro em breve.

Os confrontos de quarta-feira fizeram pelo menos 72 feridos, dois dos quais graves, e levaram à detenção de pelo menos 11 manifestantes.

Muitos habitantes de Hong Kong mostraram- -se chocados com a dureza usada pelas forças de segurança, que usaram balas de borracha, canhões de água, gás lacrimogéneo e gás pimenta para reprimir os protestos.

As autoridades dizem que os polícias se limitaram a responder aos ataques dos manifestantes, que lançaram pedras e garrafas contra os agentes e tentaram atacar edifícios governamentais.

Apesar da violência, está já marcado um novo protesto para domingo e uma greve geral às aulas e ao trabalho a partir de segunda-feira, sinal de que o braço de ferro entre os ativistas pró-democracia e o Conselho Executivo está para durar.

Pequim culpa "interferência estrangeira"
O regime de Pequim atribuiu os protestos contra a nova lei de extradição a "interferência estrangeira", e a chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, comparou os manifestantes a "crianças mal comportadas".

"Se eu fizer todas as vontades ao meu filho, até podemos ficar bem a curto prazo. Mas se eu tolerar este comportamento, ele vai lamentá-lo quando crescer", disse.

SAIBA MAIS 
1997
foi o ano em que a soberania de Hong Kong foi transferida para a China. Dois anos depois, em 1999, foi a vez de Macau.

Português por 400 anos
Macau foi um território português durante mais de 400 anos. Foi o primeiro entreposto europeu na Ásia, bem como a última colónia europeia na região.

‘Um país, dois sistemas’
Ambos os territórios foram reintegrados na China como Regiões Administrativas Especiais ao abrigo da fórmula ‘um país, dois sistemas’, que garante um elevado grau de autonomia a nível executivo, judicial e legislativo por um período de 50 anos.

Homicídio em Taiwan
A lei de extradição foi criada após o homicídio de uma jovem de Hong Kong pelo namorado durante umas férias em Taiwan. O homicida confessou o crime ao regressar a Hong Kong, mas não pôde ser extraditado devido à falta de uma lei para tal.
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