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Regulador brasileiro aprova uso de emergência das vacinas chinesa e de Oxford contra a Covid-19

Brasil só conta neste momento com doses da Coronavac, aquela que o presidente Bolsonaro não queria, chegando a dizer que os homens que a tomassem poderiam "transformar-se em jacarés" e as mulheres poderiam "passar a ter barba".
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 17 de Janeiro de 2021 às 18:01
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro FOTO: Direitos Reservados

A Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o regulador brasileiro para a área de saúde, aprovou este domingo o uso de emergência de duas vacinas contra o Coronavírus, a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, e a inglesa desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório Astrazeneca, que será produzida também pelo Instituto Fiocruz, do Rio de Janeiro. As duas vacinas foram aprovadas em reunião extraordinária de mais de cinco horas da direcção colegiada do órgão, realizada em Brasília e transmitida ao vivo pela televisão, o que reflete o enorme interesse do tema para os brasileiros.

Na prática, no entanto, o Brasil só conta neste momento com um desses imunizantes, a Coronavac, única vacina que já tem doses prontas para uso em território brasileiro e, ironicamente, aquela que o presidente Jair Bolsonaro não queria, chegando a dizer que os homens que a tomassem poderiam "transformar-se em jacarés" e as mulheres poderiam "passar a ter barba" como efeitos colaterais da substância. Já a entrega das primeiras doses da fabricada pela Astrazeneca na índia, e que o governo Bolsonaro tinha garantido que chegariam ao Brasil neste domingo mas foram recusadas pelo país oriental por estar em plena vacinação dos seus 1350 milhões de habitantes,  ainda não tem prazo para chegar, e a Fiocruz, do Rio de Janeiro, ainda não tem insumos para iniciar a produção no país.

O Butantan possui neste momento seis milhões de doses da Coronavac enviadas da China prontas para uso, já dentro das respectivas seringas e com agulhas. O instituto paulista também já tem insumos para a fabricação de outros 4,8 milhões de doses, perfazendo 10,8 milhões.

É com essas doses, as já prontas e as em producção no Butantan, que o governo de Jair Bolsonaro pretende iniciar imediatamente a vacinação dos chamados grupos de risco, como profissionais da saúde, idosos com doenças pré-existentes e indígenas isolados em aldeias na Amazónia. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, anunciou sexta-feira numa reunião com mais de 130 autarcas de todo o país que pretende começar a imunização na próxima quarta-feira, dia 20 de Janeiro, mas uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Dória, pode atrapalhar tudo.

GUERRA SUJA
Adversários políticos ferrenhos, tanto Bolsonaro quanto Doria querem, cada um deles, ser o primeiro a dar início à imunização, para ganharem um importante trunfo político, numa guerra suja que tem como principais perdedores os 210 milhões de habitantes do Brasil, onde cerca de 8,5 milhões de pessoas já foram infetadas pelo Coronavírus, e quase 210 mil já morreram em consequência da Covid-19. Ambos os governantes são pré-candidatos às presidenciais de 2022 e, apesar do tempo que ainda falta para essa eleição, já estão a degladiar-se publicamente, inclusive com ataques de baixo nível, com o governador paulista a chamar Bolsonaro de "facínora que gosta do cheiro da morte" e o chefe de Estado a dizer que Doria "não é homem, é um pilantra".

Desde sexta-feira, o Ministério da Saúde enviou vários ofícios ao Instituto Butantan, que Doria tutela, exigindo a entrega imediata dos seis milhões de doses já prontas da Coronavac, fazendo até ameaças se isso não se concretizar. Já o director do Butantan, Dimas Covas, aliado de Doria, diz que entrega as vacinas, sim senhor, mas só depois de o Ministério da Saúde dizer quantas doses vão caber a São Paulo, estado mais populoso do Brasil, com 45 milhões de habitantes, para ficar já com a quantidade de doses que lhe for atribuída.

Para o governo de São Paulo, não há qualquer lógica em o Instituto Butantan enviar todas as doses para o Ministério da Saúde, para depois este órgão lhe devolver as doses a que tem direito. Já o Ministério da Saúde, no que é encarado como uma forma de tentar evitar que João Doria comece a vacinação antes de Bolsonaro, exige receber os seis milhões de doses, afirmando que só depois disso anunciará quantas doses o estado de São Paulo vai receber e quando.

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