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Correio da Manhã

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REVERENDA CONTRA WAL-MART

Não usa mini-saia nem saltos altos. Não se balança com amplos decotes nem costuma maldizer o primeiro que se põe à sua frente. A reverenda Dukes, da Igreja Baptista, não se parece com Julia Roberts, mas já ganhou o rótulo da nova 'Erin Brockovich' da Califórnia, em versão heroína das empregadas de 'caixas'.
6 de Julho de 2004 às 00:00
 A Wal-Mart paga menos às mulheres do que aos homens. Na foto pequena, Betty Dukes
A Wal-Mart paga menos às mulheres do que aos homens. Na foto pequena, Betty Dukes FOTO: Joe Skipper/Reuters
Betty Dukes "versus" Wal-Mart Stores é a designação da maior denúncia por direitos civis da história dos Estados Unidos. E Betty Dukes, como Erin contra o conglomerado eléctrico californiano que contaminava as águas de uma comunidade da América profunda, pode bater o 'monstro'. Wal-Mart, a maior empresa retalhista dos EUA, é acusada de discriminação sexual e Dukes representa 1,6 milhões de mulheres.
Os clientes da sucursal de Pittsburg - onde trabalha uma parte dos 3500 contratados em todo o país -, uma cidade de 60 mil habitantes, a 60 quilómetros de São Francisco, os quais são maioritariamente hispanos e afro-americanos, ainda recebem a saudação de "Bem-vindo a Wal- -Mart" da boca desta cinquentona impecável, que há dez anos trabalha como caixa e continua a elogiar a empresa que pôs em tribunal.
Betty afirma que quer continuar a trabalhar ali, enquanto mostra a clientes e colegas os jornais onde saiu a sua história. Afinal, é a empregada mais célebre da Wal-Mart e pôs Pittsburg no mapa.
Quando entrou no hipermercado, que se autodefine como empresa de valores familiares e o símbolo da classe média norte-americana, pensou que a esperava um futuro melhor: "Pensei que progrediria rapidamente. Acreditava que seria promovida e receberia bons aumentos salariais".
Betty tropeçou na realidade. Em nove anos, teve um aumento de apenas 48 cêntimos/hora. O seu salário de menos de oito dólares à hora permanece intacto, enquanto alguns recém-chegados recebem nove dólares. A diferença é que eram homens. Ainda por cima, brancos.
Cada vez que perguntava sobre o curso de direcção ou sobre os cargos de chefe de compras, a resposta era esquiva: "Diziam para esperar, que chegaria o momento, nunca havia lugares disponíveis ou não tinha a experiência necessária. Mas, umas quantas vezes, homens com menos experiência ocupavam cargos que eu queria desesperadamente ou que sabia que podia desempenhar bem", contou Betty. "Sempre disse que, se não fazes nada, não podes esperar nada", precisou.
Farta, a 'caixa' descobriu um grupo de advogados que investigava casos de tratamento desigual das empregadas da empresa. Em 2001, apresentou uma denúncia por discriminação sexual e outra por discriminação racial.
"Medo pelo que estou a fazer? Outras pessoas teriam, mas eu não", assegura ela, que, com um sorriso, enfrenta uma empresa que no ano passado facturou 254 mil milhões de dólares. De acordo com a denúncia, que deu entrada em tribunal em Junho através de um juiz federal de São Francisco, a Wal-Mart paga ao ano 1400 dólares a menos às mulheres do que aos homens pelo mesmo trabalho.
Nos cargos directivos, em que elas são uma minoria (cerca de 33 por cento), apesar de representarem 65 por cento dos empregados, ganham 16 mil dólares a menos.
Dukes recebe agora 12,53 dólares. A melhoria não impede que leve por diante a denúncia. "Não estou a dizer que quero candidatar-me a dirigir a empresa. Tudo o que quero é uma oportunidade".
Dukes continua a defender a Wal-Mart, dá-se bem com os seus companheiros, conhece os clientes e tem prazer no seu trabalho. O que mais gosta na Wal-Mart é que emprega "gente de todos os caminhos da vida" e o facto de nunca ter de trabalhar aos domingos, pelo que pode ocupar-se com a sua Igreja.
ATÉ À DENÚNCIA
1950: Nasce na Califórnia. 1994: Começa a trabalhar na Wal-Mart, em Pittsburg, com a esperança de progredir.
2000: Sem aumentos salariais e vendo que homens a ultrepassavam e ascendiam a chefes, pede ajuda a um grupo de advogados.
2001: Denuncia a Wal-Mart por discriminação sexual. 2004: Um juiz aceita que o seu caso represente 1,6 milhões de empregadas. Continua a trabalhar na empresa.
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