Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
7

Rice Impõe condições para trégua

A ronda diplomática da secretária de Estado norte-americana Condolleeza Rice pelo Médio Oriente começou com uma posição de força em Beirute: os EUA consideram que um cessar-fogo no Líbano é “urgente”, mas antes o Hezbollah deve libertar os dois soldados israelitas sequestrados e recuar para longe da fronteira israelita, ou seja, as mesmas condições impostas por Israel para aceitar uma trégua.
25 de Julho de 2006 às 00:00
Rice Impõe condições para trégua
Rice Impõe condições para trégua FOTO: Adnan Haji, Reuters
“O encontro foi muito negativo”. O desânimo de uma fonte próxima do governo libanês ilustra bem a desilusão de quem, por momentos, esperou que Rice fosse à região para pressionar Israel para aceitar um cessar-fogo imediato. Durante a viagem para Beirute, as palavras da secretária de Estado norte-americana ainda permitiram vislumbrar uma luz ao fundo do túnel, quando ela afirmou pela primeira vez, de forma taxativa, que os EUA pretendiam um cessar-fogo – recorde-se que, desde início, Rice sempre rejeitou um cessar-fogo imediato, que chegou a considerar uma “falsa promessa”.
Ontem em Beirute a chefe da diplomacia dos EUA deixou bem clara a sua posição: não é possível haver um cessar-fogo enquanto o Hezbollah não libertar os dois soldados israelitas sequestrados e recuar para cerca de 20 quilómetros da fronteira. Rice disse ainda ao presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, que “a situação na fronteira não pode voltar ao que era antes de 12 de Julho”, dando a entender que os EUA não aceitarão uma solução que não inclua o desarmamento do Hezbollah, que consideram responsável pela actual crise.
Rice, que antes de deixar Beirute rumo a Israel se manifestou “profundamente preocupada com a situação do povo libanês”, prometeu ainda que, já a partir de hoje, os EUA vão distribuir ajuda humanitária para minorar o sofrimento dos civis afectados pelos bombardeamentos.
Entretanto continua a ganhar força a possibilidade do envio de uma força multinacional para a fronteira libanesa. Depois de Israel e os EUA terem dado luz verde, no fim-de-semana, a uma presença militar internacional, vários países da União Europeia, incluindo Portugal, Alemanha, Grécia e Itália, já manifestaram disponibilidade para integrar um futuro contingente multinacional no Líbano.
Falta agora definir os contornos da sua missão e as circunstâncias em que será enviada, incluindo se aguardará – como se espera – pelo cessar das hostilidades para avançar para o terreno. A situação deverá ficar mais definida após o encontro de amanhã, em Roma, dos ministros dos Negócios Estrangeiros de 14 países ocidentais e do Médio Oriente, para tentar encontrar uma solução para o conflito. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, mostrou-se ontem confiante de que a comunidade internacional conseguirá acordar um plano de paz para o Líbano “nos próximos dias”.
SÍRIA OFERECE AJUDA
A Síria concorda em ajudar Washington a localizar as células da al-Qaeda no Líbano, em ser “um intermediário com o Irão” e em “desempenhar um papel importante no Iraque”, noticiou a Sky News citando o ministro sírio das Telecomunicações. “Sabemos onde estão [as células da al-Qaeda] e podemos dizer-vos”, afirmou Amr Salem, segundo o correspondente da cadeia de televisão britânica. O vice-ministro sírio do Exterior, Faisal Mukdad, afirmara já que Damasco poderá ajudar a resolver a crise no Líbano.
23.491 PESSOAS RETIRADAS
Estas duas gémeas dormem descansadas alheias ao conflito. Os seus pais aguardam na fila para embarcar rumo ao Chipre. Segundo um documento da presidência finlandesa da União Europeia, cerca de 23 491 pessoas, entre as quais 12 500 cidadãos da UE, foram retiradas para o Chipre entre 17 e 21 deste mês. Destes, um total de 36 tinham passaporte português. Refira-se que os últimos portugueses que pediram para sair do Líbano chegaram ontem.
De salientar que Berlim, a capital da Alemanha, anunciou estar na disposição de receber refugiados do Líbano.
ISRAEL AVANÇA PARA 'LIMPAR' SEGUNDO BASTIÃO DO HEZBOLLAH
Os tanques israelitas estavam ontem às portas de Bint Jbeil, um bastião do Hezbollah a cerca de quatro quilómetros da fronteira israelo-libanesa. As notícias provenientes da frente de batalha falavam de combates encarniçados entre milicianos do Hezbollah armados com lança-rockets e a infantaria israelita apoiada por tanques e meios aéreos, cujo objectivo era ‘limpar’ a cidade de guerrilheiros.
Bint Jbeil é o segundo bastião do Hezbollah a ser atacado por forças terrestres israelitas, depois da captura, no fim-de-semana, da localidade de Maroun al-Ras, junto à fronteira.
Israel reclamou ontem ter capturado dois guerrilheiros, notícia não confirmada pelo Hezbollah, que reivindicou, por seu lado, a destruição de cinco tanques e o derrube de um helicóptero israelita. Israel está a investigar as causas da queda do aparelho, que causou a morte a dois soldados, mas não afastou a possibilidade de ter sido atingido por um míssil.
Também durante o dia de ontem os subúrbios de Beirute voltaram a ser fortemente castigados pela aviação israelita, enquanto o Norte do Israel era novamente atingido por salvas de rockets Katyusha, que fizeram pelo menos quatro feridos. Do lado libanês o balanço de vítimas apontava ontem para sete mortos e cerca de 50 feridos, na sua maioria civis.
AMADO PEDE REUNIÃO A UE
O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, pediu ontem, em carta enviada à Presidência finlandesa da União Europeia (UE), uma reunião extraordinária dos chefes da diplomacia dos 25 para debater a situação no Médio Oriente.
Na carta enviada ao seu homólogo finlandês, Erkki Tuomioja, o chefe da diplomacia portuguesa refere que “esta proposta do Governo português insere-se na sua vontade de ver a UE activamente envolvida na solução deste conflito falando e agindo a uma só voz”. “Os rápidos desenvolvimentos político-diplomáticos, o prolongamento dos confrontos militares e a deterioração da situação humanitária justificam, no entendimento do Governo português, a convocação dessa reunião”, refere ainda a mensagem de Luís Amado que defende que esta proposta visa igualmente “ir ao encontro da aspiração de muitos europeus que desejam ver a UE como um factor de equilíbrio e estabilidade nas relações internacionais”.
Fonte da Presidência finlandesa da UE confirmou ter recebido a missiva do chefe da diplomacia portuguesa, mas adiantou que a realização da referida reunião “depende dos resultados do encontro do Grupo de Contacto para o Líbano”, que se realiza amanhã em Roma.
Já o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou desconhecer a proposta de Luís Amado, mas considerou “úteis” todas as iniciativas para tentar encontrar uma solução para o conflito. “A UE está a trabalhar com muito afinco [nesse sentido]”, afirmou Barroso, lembrando que Bruxelas lidera os esforços internacionais de auxílio, não só ao Líbano, mas também a Chipre e a Gaza.
BARROSO QUER FORÇA EUROPEIA
O presidente da Comissão Europeia (CE), Durão Barroso, defendeu ontem no Porto o envio de uma força internacional para o Líbano e espera que os países europeus participem activamente na resolução do conflito. “É óbvio que é necessária uma presença internacional, porque o nível de confiança entre as partes beligerantes é nula e só com uma força internacional é que poderemos ter condições para aplicar a paz. Só poderei congratular-me se essa força for europeia”, afirmou Durão Barroso. O presidente da CE reconhece que a situação tem vindo a deteriorar-se, mas que ainda não tem certezas quanto à data em que uma futura força europeia poderá avançar para o terreno.
SOLTAS
GARANTIAS E AMEAÇAS
Israel garantiu ontem que a ofensiva no Líbano não visa destruir o Hezbollah, mas afastá-lo da fronteira e impedi-lo de lançar rockets contra o norte de Israel. Telavive ameaça, no entanto, destruir dez edifícios de Beirute por cada ataque contra Haifa.
CORREDORES VITAIS
O alto comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, considerou ontem “crucial” a criação de corredores humanitários para distribuir ajuda à população afectada pelos bombardeamentos.
ONU PEDE 150 MILHÕES
As Nações Unidas afirmaram ontem que é necessária ajuda humanitária no valor de 150 milhões de dólares para ajudar a população libanesa.
MORTE EM GAZA
Pelo menos seis palestinianos foram ontem mortos em ataques israelitas na Faixa de Gaza, onde prossegue a ofensiva lançada há quase um mês.
VOCALISTA SOLIDÁRIO
O vocalista da banda de heavy metal Iron Maiden, Bruce Dickinson, pilotou um avião que trouxe de regresso ao Reino Unido 200 refugiados britânicos fugidos do Líbano.
CANCELAMENTO
Os Deep Purple cancelaram o concerto agendado para esta semana na cidade de Baalbek, no Líbano.
LAHOUD ACUSA ISRAEL
O presidente libanês, Emile Lahoud, acusou ontem Israel de ter utilizado bombas de fósforo e instou a ONU a exigir um cessar-fogo imediato.
TELAVIVE AVISA MISSÕES
Israel alertou ontem as suas missões diplomáticas no estrangeiro para eventuais ataques do Hezbollah ou de muçulmanos locais.
PEDIDO DO REI MOHAMED VI
O rei Mohamed VI, de Marrocos, enviou cartas ao Conselho de Segurança da ONU, à União Europeia e ao Vaticano a solicitar uma intervenção.
AHMADINEJAD AVISA
O presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, avisou Israel que “carregou no botão” para a sua autodestruição devido à ofensiva no Líbano.
SECRETA MAL PREPARADA
Os Serviços de Espionagem israelitas não estavam preparados para esta guerra. Agora estão numa corrida à informação sobre esconderijos do Hezbollah.
MIGUEL PORTAS EM BEIRUTE
O eurodeputado do Bloco de Esquerda Miguel Portas chega hoje a Beirute. Chefia uma delegação do Partido da esquerda Europeia.
Ver comentários