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Rússia desafia EUA com teste de míssil

O braço-de-ferro entre a Rússia e os EUA e Europa ganhou ontem novos contornos depois de os militares russos terem testado com sucesso um novo míssil intercontinental. O RS-24, com capacidade para transportar até dez ogivas, é a resposta ao projecto norte-americano de construção, em países da antiga esfera de influência soviética, de bases avançadas do seu sistema de defesa antimíssil.
30 de Maio de 2007 às 00:00
O míssil intercontinental de nova geração vai substituir outros cujo fabrico remonta à década de 70
O míssil intercontinental de nova geração vai substituir outros cujo fabrico remonta à década de 70 FOTO: Direitos Reservados
O lançamento foi efectuado de uma plataforma móvel no cosmódromo de Plesetsk, no Norte da Rússia, e as autoridades afirmam que o teste foi um sucesso, pois o míssil atingiu o alvo, situado a 5,500 km, na distante península de Kamchatka.
Segundo uma declaração oficial, o RS-24 vai substituir dois outros mísseis intercontinentais do seu arsenal nuclear, como o RS-18 e o RS-20, ainda hoje considerados dos mísseis balísticos mais poderosos.
Refira-se que os mísseis como o RS-24, dotados de múltiplas ogivas, capazes de ser direccionadas para diversos alvos, são mais difíceis de interceptar e destruir por completo, mesmo por escudos de defesa tão desenvolvidos como os dos EUA. É este sistema, aliás, que está na base da actual tensão entre Moscovo e Washington, reminescente da Guerra Fria. A Casa Branca negociou com a Polónia a construção de uma base de intercepção no seu território e com a República Checa chegou a acordo para montagem de um sistema de radar. Estas estruturas, garantem os EUA, não visam os russos, sendo destinadas a prevenir ataques de ‘Estados párias’ como o Irão ou a Coreia do Norte.
Mas o presidente Vladimir Putin pensa de forma diversa. Nos últimos anos, usou o poder económico, e sobretudo a ‘arma’ energética russa, para pressionar os países da antiga esfera soviética e, através deles, a Europa Ocidental. Neste contexto, o teste do RS-24 sublinha a ideia de que o escudo antimíssil é visto por Putin como ameaça directa e inequívoca, tanto à segurança da Rússia como à sua influência na Europa Central e de Leste. Ontem, em reunião em Moscovo com o primeiro-ministro português, José Sócrates, sublinhou a ideia ao afirmar que o escudo transforma a Europa num “barril de pólvora” e que cria “riscos desnecessários para todo o sistema de relações internacionais”.
O presidente russo, recorde-se, já tinha ameaçado retaliar com a suspensão da adesão russa ao Tratado de não Proliferação de Armas Convencionais na Europa e considerou, em Abril, que as bases avançadas do escudo dos EUA originariam uma corrida às armas, aumentando o risco de “destruição mútua”.
PROJECTO DE WASHINGTON DIVIDE NATO
As ramificações europeias do sistema de defesa antimíssil dos EUA preocupam muitos aliados da NATO. O desconforto e polémica desencadeados pelo projecto de instalação de bases avançadas na Polónia e na República Checa foram sublinhados em Março pelo secretário-geral da Aliança Atlântica. Jaap de Hoop Scheffer considerou que o sistema não deve dividir a NATO ao criar distinções entre os países-membros. “Quando se trata de defesa antimísseis, não deveria haver uma divisão A e uma B na NATO”, afirmou, referindo o facto de o programa dos EUA não cobrir toda a Europa, deixando de fora a parte sudoeste. Hoop Scheffer aventou na altura a possibilidade de o alcance do sistema americano ser alargado graças à cooperação de um sistema paralelo da NATO.
SAIBA MAIS
- 10 ogivas é a capacidade máxima do novo míssil intercontinental russo RS-24. Cada ogiva pode ser direccionada para um alvo distinto.
- 5 interceptores de mísseis foram activados em 2004 no Alasca como primeira fase do sistema de defesa antimíssil dos EUA. Actualmente há pelo menos mais seis interceptores operacionais no Alasca e Califórnia.
UE DIVIDIDA
Em Dezembro de 1999 a ONU aprovou uma resolução contra o projecto de escudo antimíssil dos EUA. A UE absteve-se, com excepção da França e Irlanda.
TRÊS FASES
O sistema de defesa antimíssil está planeado em três fases, a última das quais permitirá uma defesa contra centenas de ogivas disparadas em simultâneo.
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