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Correio da Manhã

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Saddam à espera da pena de morte

Prometeu resistir à invasão norte-americana “até à última gota de sangue”, mas em Dezembro de 2003, meses após o final dos combates, foi encontrado num buraco nos arredores de Tikrit, não muito longe do local onde nasceu. A imagem do ‘Leão de Bagdad’, sujo e desgrenhado, correu mundo, revelando a cobardia de um ditador em tempos todo-poderoso e implacável, que conquistou fama ao desafiar, anos a fio, a maior potência do Mundo.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
O tribunal iraquiano que julgou Saddam Hussein, de 69 anos, por crimes contra a Humanidade vai hoje ler a sentença. Espera-se uma condenação à morte por enforcamento, final sem honra para um homem que se vê como um guerreiro – e que por isso queria ser fuzilado – e que viveu no luxo, alimentando um culto da personalidade mediante o qual se arvorou em herói do povo, enquanto impunha o terror e levava milhares de pessoas à morte.
Bagdad e as províncias de Diyala e Salahaddinn, de maioria sunita, estão submetidas a segurança reforçada e a um severo recolher obrigatório, pois teme-se uma maré de violência fomentada pelos fiéis do ex-presidente.
Aliás, durante o seu julgamento Saddam fez por várias vezes elogios à luta armada, apelos à resistência e ameaças. Em Março isso valeu-lhe uma de inúmeras expulsões do tribunal. “Vivereis no meio das trevas e de rios de sangue sem necessidade”, afirmou Saddam antes de ser retirado da sala.
A sentença lida hoje diz respeito ao primeiro julgamento de Saddam, acusado, juntamente com sete outros arguidos, de responsabilidade pela execução de 148 xiitas em Dujail, em 1982, como retaliação por uma tentativa de assassinato durante uma visita àquela localidade.
Nos longos meses desse primeiro julgamento – actualmente o ex-ditador responde pelo massacre de 180 mil curdos no final da década de 1980 – Saddam contestou repetidamente o processo, ao qual chamou “uma comédia”. Persistindo em intitular-se presidente do Iraque, considerou o tribunal ilegítimo e vendido aos EUA. “Bush é um vilão e isto é puro teatro para o reeleger”, afirmou no final de 2004.
Este tipo de acusação foi repetido agora pelo responsável da sua equipa de advogados. Khalil al-Dulaimi afirma que, para Saddam, a leitura do veredicto foi reservada para agora de maneira a reforçar a popularidade do presidente George W. Bush em vésperas das eleições para o Congresso, que decorrem terça-feira.
A iminência do veredicto foi comentada ontem pelo primeiro-ministro do Iraque, Nuri al--Maliki – líder de um governo de maioria xiita e curda – que fez votos para que Saddam tenha “o que merece”. Sobre a provável condenação à morte, Maliki referiu que só peca por tardia. Apesar destas declarações, algo fortes, apelou à calma e instou os iraquianos a “exprimirem a alegria tendo em conta a situação de segurança”.
DESAFIADOR E PRETENSIOSO
Saddam Hussein recusa desde o início reconhecer a legitimidade do tribunal que o julga e persiste em apelidar-se presidente do Iraque. Isolado, ou em conluio com os restantes arguidos, desafiou repetidamente os magistrados por meio de insultos, de um silêncio ostensivo durante o interrogatório ou através de ameaças. Estes desafios levaram-no a ser expulso repetidamente. Em Setembro foi expulso três vezes numa só semana.
“Este é um tribunal americano com regras americanas. Você não pode forçar-me a permanecer aqui”, afirmou um dia. Ao juiz, numa das primeiras audiências, perguntou: “Quem é você? Alguma vez foi juiz antes disto?” Noutra ocasião, quando o juiz batia o martelo exigindo silêncio, Saddam interrompeu-o, gritando: “Por que não bate com o martelo na sua cabeça?” Agora que a sentença está próxima, será curioso ver como recebe a leitura do veredicto...
PERFIL
Saddam Hussein nasceu junto a Tikrit (1937) numa família de pastores. Arrasada com a morte do marido e do filho mais velho, de 12 anos, a sua mãe, Subha al-Mussallat, tentou matar o bebé no ventre, considerando-o um demónio. Criado por um tio e pelo padrasto, que o espancava, Saddam tornou-se implacável. Subiu ao poder em 1979. Transformou o Iraque num país moderno mas também num reino de terror.
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