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Correio da Manhã

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SADDAM DESAFIA JUSTIÇA IRAQUIANA

“Sou Saddam Hussein, presidente do Iraque”. Foi assim que o ex-ditador se apresentou esta quinta-feira no tribunal instalado num dos seus antigos palácios em Bagdad, onde lhe foram lidas as sete acusações pelas quais vai ser julgado pela Justiça iraquiana. Saddam recusou assinar a notificação de acusação, considerou o tribunal uma farsa e declarou que o “verdadeiro criminoso” é George W. Bush.
1 de Julho de 2004 às 15:03
Saddam Hussein não era visto em público desde Dezembro último, quando foi capturado por tropas norte-americanas, escondido num buraco, no quintal de uma casa rural abarracada, na região de Tikrit. Os norte-americanos prometeram colocar Saddam sob custódia da justiça iraquiana, o que cumpriram ontem, mas mantêm a custódia física do prisioneiro.
O ex-ditador chegou de helicóptero ao interior do grande perímetro de palácios em Bagdad e foi transportado num carro blindado até ao edifício onde foi instalado o tribunal, sendo aí entregue, acorrentado e algemado, a guardas iraquianos. As correntes foram-lhe retiradas antes de entrar no tribunal, mas as algemas só ‘saíram’ já no interior da sala de audiências. Visivelmente mais magro, com olheiras pronunciadas e barba esbranquiçada, Saddam desafiou claramente o exercício de justiça de que é alvo.
O juiz iraquiano que presidiu à audiência leu a Saddam o teor das sete acusações pelas quais vai ser julgado. Além da invasão do Koweit (1990), estas acusações preliminares incluem a supressão das revoltas curda e xiita após a primeira Guerra do Golfo (1991), o assassínio de líderes religiosos em 1974, o homicídio de diversos opositores políticos ao longo de décadas e o massacre de cinco mil curdos com armas químicas em 1988. “Sim, ouvi falar nisso”, comentou Saddam, a propósito desta última acusação.
Esta reacção é um espelho da atitude que Saddam manteve em tribunal. O ex-ditador recusou admitir que a invasão do Koweit tenha sido um crime, alegando que os koweitianos queriam transformar as mulheres iraquianas em prostitutas de dez dólares. “Como pode você defender esses cães?” questionou Saddam, dirigindo-se ao juiz, que o repreendeu pela linguagem usada. De seguida, Saddam olhou em redor, sorriu, e disse: “Tudo isto é teatro. O verdadeiro criminoso é Bush”.
O ex-ditador iraquiano chegou a comentar que os invasores do Iraque não têm qualquer direito de o remover da sua presidência. O juiz explicou-lhe que, ao abrigo das Convenções de Genebra, têm.
No final, Saddam recusou assinar a notificação de acusação. Como Saddam não se fez acompanhar por um advogado, o juiz perguntou-lhe se pretendia um nomeado pelo tribunal. O ex-ditador respondeu, em tom irónico: “Mas toda a gente diz, os americanos dizem, que eu tenho milhões escondidos em Genebra. Porque é que eu não haveria de pagar um advogado?” . Toda a audiência foi transmitida pela televisão iraquiana... depois de ter terminado.
Esta audiência preliminar de Saddam Hussein durou meia-hora e decorreu no mesmo tribunal improvisado onde foi ouvida na semana passada Sabrina Harman, um dos setes soldados norte-americanos acusados de tortura de prisioneiros em Abu Ghraib. Após a audiência de Saddam devem comparecer perante o juiz, ao longo desta quinta-feira, os restantes 11 antigos colaboradores de Saddam que foram ontem entregues à justiça iraquiana. Entre eles o antigo vice-primeiro-ministro, Tareq Aziz, e Hassan Ali al-Majad, mais conhecido por “Ali, o Químico” (por causa do ataque de 1988), que chegou a ser dado como morto durante o avanço militar britânico no Sul do Iraque.
O julgamento de Saddam deverá se o ajuste de contas dos iraquianos com 35 anos de ditadura, mas calcula-se que as audiências só comecem daqui a alguns meses. Um membro do governo interino iraquiano não teve qualquer dúvida em declarar que o povo quer a sentença de morte. Este castigo foi suspenso durante a ocupação militar estrangeira. Ironicamente, as novas autoridades estão a ponderar repor a pena de morte no país, até como reforço dos sinais de independência (leia-se, fim da ocupação).
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