Irmã Dulce passa a ser Santa Dulce dos Pobres por lhe terem sido reconhecidos dois milagres pelo Vaticano.
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A freira brasileira Irmã Dulce, que dedicou toda a sua vida aos pobres e enfermos e há décadas já é chamada de "Santa dos Pobres" por milhões de devotos, passa a partir deste domingo a ter a sua santidade reconhecida pelo Vaticano. Com a canonização, Irmã Dulce, que foi beatificada em 2010 depois de ter tido o primeiro milagre reconhecido pelo Vaticano, passa hoje a ser oficialmente Santa Dulce dos Pobres, após mais um lilagre ter sido aceite.
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, nome de baptismo de Irmã Dulce, nasceu em Salvador, capital do estado da Bahia, em 26 de Maio de 1914, filha de um casal de classe média, o dentista e professor universitário Augusto Lopes Pontes, e Dulce Maria de Sousa Brito Lopes Pontes. Irmã Dulce morreu na mesma cidade em 1992 pouco antes de completar 78 anos, após longo sofrimento decorrente de um efizema pulmonar que a afligiu por anos e lhe reduziu em quase 70% a capacidade respiratória mas não a impediu de cumprir a sua missão de caridade.
Tendo-se formado professora, a então jovem Maria Rita decidiu no entanto seguir o chamamento que a inspirava desde criança e aos 18 anos ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, localizada no Convento do Carmo, na cidade de São Cristóvão, no vizinho estado de Sergipe. Pouco antes de regressar a Salvador aos 20 anos, já como freira, a jovem adoptou o nome religioso de Irmã Dulce em homenagem à mãe, que morrera durante um outro parto quando Maria Rita tinha apenas sete anos.
Talvez pelo sofrimento da perda precoce da mãe, Maria Rita desde muito cedo começou a sensibilizar-se com as dores dos outros e, mais do que simplesmente condoer-se com elas, tentava minimizá-las. Com apenas 13 anos de idade, ainda longe de se tornar freira, a menina já levava para a própria casa "sem abrigo", a quem dava tecto e comida, e acolhia enfermos.
Com o passar dos anos, as suas acções em favor dos menos favorecidos, principalmente em Salvador, assumiram um volume tão grande que a jovem freira, no desespero de não ter onde acolher tantos necessitados, tomou uma atitude polémica e corajosa. Em 1939, Irmã Dulce invadiu cinco imóveis numa região muito pobre de Salvador conhecida como Ilha dos Ratos que há muito estavam abandonados e instalou lá os muitos doentes de que cuidava e começou a acolher cada vez mais.
Nove anos depois, foi expulsa dos imóveis, que tinha transformado em hospitais e asilos improvisados mas não lhe pertenciam. A partir daí e por quase uma década viveu uma penosa peregrinação de local em local com os seus enfermos e desabrigados, instalando-os provisoriamente num lugar para logo depois ter de levá-los para outro.
Até que, numa outra decisão polémica e, mais uma vez, corajosa, Irmã Dulce, sem ter mais para onde levar os seus doentes, tóxicodependentes e desabrigados, pediu à madre superiora do Convento do Carmo que lhe permitisse ocupar um grande galinheiro anexo ao edifício religioso. Assim começou, de forma absolutamente improvisada e sem recursos, o que anos depois se transformaria no Hospital Santo António, hoje em dia um dos mais respeitados e o maior do estado da Bahia.
Números
Em 1959, Irmã Dulce criou, no dia do seu aniversário, 26 de Maio, a Associação Obras Sociais Irmã Dulce, actuantes e pujantes até hoje e que atendem de forma gratuita milhões de pessoas por ano. Um ano depois, inaugurou o Albergue Santo António, com 150 leitos para pessoas carentes, e espalhou as suas obras assistenciais e de saúde por outras regiões da Bahia.
Hoje, o conjunto de unidades das Obras Sociais Irmã Dulce realiza impressionantes 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano, 2,2 milhões dos quais só em Salvador. O Hospital Santo António, que do simples galinheiro se transformou num moderno gigante com 954 leitos, atende duas mil pessoas por dia, realiza 18 mil internações e 12 mil cirurgias por ano, além de garantir 11,5 mil tratamentos contra o cancro por mês.
Apesar de todas as dificuldades, pois as obras sociais e o hospital vivem de doações e de defasados recursos públicos correspondentes aos atendimentos, o trabalho iniciado pela religiosa não pára. Para garantir isso, 4500 pessoas, entre profissionais das mais variadas áreas e voluntários, desdobram-se diariamente para atender quantos precisam de ajuda, entre esses 150 crianças com microcefalia e 783 crianças e adolescentes sem recursos que são abrigados pela entidade.
Respeito e reconhecimento
Esse trabalho foi reconhecido no Brasil e pelo mundo mesmo enquanto Irmã Dulce estava viva, cuidando dos seus enfermos no hospital ou percorrendo os bairros mais pobres de Salvador, como era muitas vezes vista procurando quem precisava da sua ajuda, de um tratamento ou internação ou, simplesmente mas não menos importante, apenas de uma palavra de conforto e esperança. Essa proximidade com as pessoas tornou Irmã Dulce ainda mais humana, próxima e querida de todos, pois era uma santa com a qual se podia cruzar de repente numa rua qualquer da cidade, com quem se podia falar de pertinho, a quem se podia tocar.
Em 1988, Irmã Dulce foi indicada ao Prémio Nobel da Paz pelo então presidente do Brasil, José Sarney, com o apoio da Raínha Sílvia, da Suécia. A brasileira não venceu mas a indicação divulgou o seu trabalho ainda mais por todos os cantos do mundo.
Uma das pessoas que mais mostrou respeito pela religiosa brasileira foi o Papa João Paulo II, que a visitou por duas vezes. A primeira em 1980, quando João Paulo II alterou o percurso original de uma viagem ao Brasil para visitar Irmã Dulce em Salvador, e a segunda em Outubro de 1991, poucos meses antes da morte dela.
Nesta última oportunidade, Irmã Dulce, já gravemente doente, estava internada no Hospital Santo António. O Sumo Pontífice foi reconhecido por Irmã Dulce, conversou com ela por alguns minutos pegando-lhe na frágil mão e, ao sair do quarto, ajoelhou-se humildemente no chão e rezou pela religiosa.
Humildes e poderosos
Irmã Dulce parecia tão à vontade entre os mais pobres quanto entre poderosos, mantendo sempre a mesma postura que mesclava humildade e doçura mas sem deixar de ser firme quando precisava. Ficou célebre o episódio em que Irmã Dulce, em plena ditadura militar, cobrou publicamente o então presidente da República, o temido general João Baptista Figueiredo, por uma promessa de ajuda não concretizada.
Ao encontrar-se novamente com o chefe de Estado 30 meses depois, Irmã Dulce disse ao chefe do regime militar que Santo António lhe tinha confidenciado que o general só iria para o Céu se cumprisse a promessa de ajudar as obras sociais e o hospital. Figueiredo afirmou que honraria a promessa nem que tivesse de assaltar um banco, e Irmã Dulce retrucou que, se realmente fosse essa a solução, a chamasse para ela ajudar a carregar o dinheiro para os pobres.
Dois milagres reconhecidos
O primeiro milagre de Irmã Dulce reconhecido após exaustiva investigação do Vaticano ocorreu em 2001. A agraciada com essa acção milagrosa foi Cláudia Cristiane Santos de Araújo, então moradora na localidade de Malhador, no interior do estado de Sergipe.
Após um parto difícil, Cláudia teve hemorragias sucessivas e muito fortes e os médicos, após inúmeras tentativas frustradas de conter os sangramentos, consideraram o caso perdido e chamaram um padre para dar a extrema unção à suposta moribunda. O religioso ao chegar perto de Cláudia fez uma oração pedindo ajuda a Irmã Dulce, deixou ao sair do quarto uma imagem da religiosa sobre a enferma e, Cláudia, quando os médicos já se preparavam para assinar o atestado de óbito, inesperadamente recobrou-se e salvou-se.
O segundo milagre aconteceu em 2014 com o maestro Maurício Moreira. Maurício ficou cego no ano 2000 e os médicos afirmaram que a cegueira era irreversível. Em 2014, após rezar muito para Irmã Dulce, de quem é devoto, Maurício voltou a ver e essa cura inexplicável aos olhos da ciência foi reconhecida pela Igreja Católica como mais um milagre da a partir de hoje Santa Dulce dos Pobres.
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