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Conheça a história de Sara, a grávida que perdeu tudo a fugir do ciclone Idai

Fenómeno de 14 de março provocou pelo menos 501 mortos e 1.523 feridos em Moçambique.
Lusa 31 de Março de 2019 às 08:49
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Passagem do Ciclone Idai em Moçambique
Quase duas semanas depois de ser desalojada pelo ciclone Idai, num subúrbio da vila de Nhamatanda, centro de Moçambique, Sara Menezes quer agora ver o filho nascer debaixo de um teto.

No oitavo mês de gestação, Sara suspira de alívio quando se recorda que o parco enxoval foi arrastado pelas águas, mas ela sobreviveu.

"Só preciso de casa para ficar", desabafa à Lusa, ainda queixosa, com dores na coluna, depois do esforço, da corrida, da fuga pela vida que teve de tentar por vários quilómetros, debaixo de chuva, até ser acolhida por um sacerdote.

"Naquela noite não sentia dor, só às vezes a respiração cortava", conta.

Agora acomodada numa tenda com outras 30 grávidas, num centro de abrigo instalado nos arredores da vila de Nhamatanda, Sara Menezes espera que os dias soalheiros devolvam esperança a centenas de famílias, sem teto, comida e roupa.

Outra sobrevivente, Sáquina João, conta que os ventos do ciclone lhe levaram o teto e derrubaram a parede do quarto onde dormia, antes de ir pedir socorro na casa vizinha, que também já estava alagada.

Recorreu a uma sala de uma escola, onde se tinham refugiado os restantes vizinhos.

"No próprio dia que fugia não sentia nada, só hoje sinto o corpo fraco, dores de cabeça e tosse", diz à Lusa, lembrando que depois de a casa desabar e de ela perder tudo no interior, passou fome e ficou depressiva, pois não tinha a quem recorrer.

Um casal de idosos, classificado pelas autoridades também como grupo vulnerável, a par das grávidas e crianças, conta que apenas conseguiu resgatar quatro filhos menores.

"Quando descobri a água já no quarto, acordei a minha mulher, carreguei ao colo uma criança, outra no pescoço e saímos a correr, com a água já ao peito" conta Nhamaião Joaquim.

As vítimas passaram vários dias alojadas em salas de aulas de escolas públicas, mas desde terça-feira foram abrigadas num centro de abrigo com tendas, em gestão conjunta pela Cruz Vermelha e o governo local.

Pascoal Franque, representante da Cruz Vermelha, explicou à Lusa que os grupos vulneráveis, como grávidas, mulheres em amamentação e idosos, foram distribuídos por tendas coletivas "para uma assistência adequada".

As vítimas ainda se ressentem da falta de alimentos, conta, numa altura em que vários medicamentos já foram colocados à disposição do centro de abrigo para evitar a eclosão de doenças, como a cólera.

Grávidas e idosos fazem parte do grupo de 7.422 pessoas vulneráveis que foram recebidos em 161 centros de acolhimento temporário na região centro de Moçambique que dão abrigo a cerca de 140.000 pessoas.

O grupo de pessoas vulneráveis equivale a 5% do total, segundo os números oficiais.

O ciclone de 14 de março provocou pelo menos 501 mortos e 1.523 feridos em Moçambique, anunciaram as autoridades moçambicanas.

A região centro enfrenta agora o perigo de fome e epidemias, com 271 casos de cólera já registados na cidade da Beira.

O Idai atingiu a região centro de Moçambique, o Maláui e o Zimbabué, tendo provocado um total de 816 mortos nos três países.
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