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Correio da Manhã

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Sarkozy contra imigração

O Parlamento francês começou ontem a debater o controverso projecto de lei da imigração, proposto pelo ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que defende energicamente a selecção dos estrangeiros que entram no país para trabalhar.
3 de Maio de 2006 às 00:00
Uma aproximação às ideias defendidas pelo líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, um dos candidatos com quem vai disputar as presidenciais do próximo ano. A oposição acusa-o de se servir do tema da imigração para lançar já a campanha e a Igreja alerta o governo para os perigos da lei. O primeiro-ministro, Dominique de Villepin tenta tranquilizar os críticos dando sinais de flexibilidade.
No seu projecto de lei, Sarkozy propõe que se aceite apenas os trabalhadores altamente qualificados e exige que eles aprendam a língua e a cultura francesas. Os que forem aceites terão um visto especial que lhes permitirá ficar no país durante três anos, período durante o qual terão de provar que se podem sustentar a si próprios e que desejam integrar-se na sociedade francesa. A sua família só poderá juntar-se a ele 18 meses depois de lhe ter sido dado o visto.
O projecto de lei também ‘aperta o cerco’ aos casamentos por conveniência, alargando de dois para quatro anos o tempo de duração do matrimónio após o que o imigrante pode requisitar a nacionalidade francesa. E a autorização de residência pode ser-lhe retirada se o casal se separar.
No que respeita à autorização de residência de longo prazo, que até aqui era concedida automaticamente ao imigrante que estivesse a viver em França há 10 anos, passará a ser avaliada caso a caso, se o projecto de lei for aprovado.
Estas medidas são uma clara aproximação às ideias defendidas pela extrema-direita francesa. Le Pen aproveitou para comentar a ‘lei Sarkozy’ no comício de lançamento da sua candidatura, na segunda-feira. “Os meus pontos de vista sobre a imigração estão a ganhar terreno em França”, afirmou com alguma ironia. “Nicolas Sarkozy sugere uma imigração selectiva, eu sugiro imigração zero.” Aliás, a esquerda acusa-o de se servir dos imigrantes para ‘roubar’ votos a Le Pen, a quem as sondagens dão 14%. As Igrejas Católica, Protestante e Ortodoxa juntam-se à contestação e alertam para o facto discriminatório da lei.
Villepin, enfraquecido pelos protestos do ano passado e os dos estudantes, mostra disponibilidade para flexibilizar. Mas Sarkozy, filho de um imigrante húngaro, parece menos receptivo a mudanças e assegura que a lei será uma salvaguarda contra o racismo.
'NÃO SOU GANGSTER'
Jamel entrou em França há 13 anos com visto de turista. Queria trabalhar para mandar dinheiro à mãe, na Tunísia. Durante anos trabalhou no restaurante de um sobrinho em Paris, mas este acabou por fechá-lo. Agora não tem emprego, vive do que poupou e da ajuda de amigos. “Peço emprestado para mandar dinheiro à minha mãe. Ela pensa que estou a trabalhar.” Mas Jamel não consegue arranjar trabalho nem o visto de residência. “Não sou gangster. Só quero trabalhar, ter alguma dignidade”, disse.
VILLEPIN DIZ QUE NÃO SE DEMITE
O escândalo de espionagem política conhecido por ‘Clearstream’, chegou ontem ao Parlamento francês, com o primeiro-ministro francês afirmar-se vítima de “uma campanha de calúnias e de mentiras” e a assegurar que não vai demitir-se, pondo-se à disposição da Justiça. O caso Clearstream rebentou em 2004, quando vieram à luz acusações anónimas de que Nicolas Sarkozy, ministro do Interior, e outros políticos teriam contas numa instituição financeira com sede em Luxemburgo chamada Clearstream.
Estas contas estariam relacionadas com a venda de fragatas francesas a Taiwan, em 1991, na qual teriam sido pagos subornos. As acusações revelaram-se falsas e foi aberta uma investigação para apurar quem estava por detrás da trama. Segundo o jornal ‘Le Monde’, Phillipe Rondot, ex-coordenador dos Serviços de Informação, terá dito aos juízes que Villepin lhe ordenara, a pedido do presidente Jacques Chirac, que investigasse vários políticos, entre os quais Sarkozy. Ontem, Rondot negou ao ‘Le Fígaro’ que tivesse feito tais declarações. Falando perante o Parlamento, Villepin mostrou-se indignado e destacou que esta “campanha de difamação” surge a um ano de presidenciais. “A única resposta é a verdade e a transparência”, disse. Sarkozy, por sua vez, mostrou-se determinado a ir até ao fim para saber a verdade”.
OUTROS PAÍSES
PORTUGAL
Portugal aprovou uma lei que aperta o controlo de estrangeiros, altera o regime de vistos, combate a imigração ilegal e favorece a integração de estrangeiros que se encontram legalmente no país.
ESPANHA
O governo espanhol aprovou, em 2005, uma amnistia para os imigrantes ilegais que provassem ter um emprego e o cadastro limpo.
BÉLGICA
O governo belga aprovou medidas no sentido de ‘apertar o cerco’ à imigração. Também se propôs a abreviar os processos daqueles que pedem asilo. Este projecto de lei ainda não foi aprovado pelo Parlamento.
REINO UNIDO
O executivo de Tony Blair quer introduzir um sistema de pontos a atribuir aos estrangeiros que queiram trabalhar no país, baseado nas suas qualificações. Os pontos determinarão se poderão trabalhar no Reino Unido e por quanto tempo.
ALEMANHA
O governo alemão não está apertar o controlo à imigração. Aliás, tem um programa de ‘cartão verde’ para atrair imigrantes qualificados, mas não está a resultar.
HOLANDA
A Holanda está mais rigorosa na aceitação de estrangeiros, exigindo-lhes nomeadamente que saibam a língua e conheçam a cultura holandesa.
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