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Secretário da cultura de Bolsonaro demitido depois de replicar discurso de ministro de Hitler

Roberto Alvim usou ainda como música de fundo uma ópera de Richard Wagner, compositor alemão exaltado pelo ditador.
Domingos Grilo Serrinha, correspondente no Brasil e Lusa 17 de Janeiro de 2020 às 15:03
jair bolsonaro
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O secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, foi demitido esta sexta-feira após a vaga de indignação e protestos que provocou no dia anterior ao replicar um discurso feito décadas atrás pelo ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels. Além de plagiar e usar como seu o discurso de Goebbels, um dos mais célebres nomes do nazismo, para anunciar um programa de incentivo às artes, Alvim usou ainda como música de fundo uma ópera de Richard Wagner, compositor alemão exaltado por Hitler.

A atitude foi considerada pela área cultural e por políticos mais civilizados como uma nova provocação de um membro do governo Bolsonaro e uma exibição de radicalismo e intolerância, que gerou uma vaga de pedidos de demissão do secretário, que recebeu apoio até dos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Alvim, considerado um radical de extrema-direita, foi nomeado por Bolsonaro para combater o que o presidente brasileiro chama de viés esquerdista da Cultura no Brasil.

No seu discurso, publicado em vídeo na página oficial da Secretaria Especial da Cultura e que pretendia anunciar um novo programa de incentivo à Cultura, Roberto Alvim afirma que "a arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações do nosso povo, ou então não será nada." No discurso que serviu de base ao brasileiro, Joseph Goebbels tinha afirmado no auge do nazismo que "a arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objectiva e livre de sentimentalismo, será nacional e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada."

Esta sexta-feira, ao falar com jornalistas antes de ser chamado às pressas ao palácio presidencial e ser demitido, Alvim defendeu-se atribuindo mais uma vez a esquerdistas as críticas de que é alvo. E argumentou que há no seu discurso apenas uma mera coincidência de uma única frase em relação ao discurso de Goebbels, o que não é verdade, mas ampliou ainda mais a polémica ao dizer que, mesmo tendo sido apenas uma coincidência, concorda com o alemão.

Ao assumir a presidência brasileira, há um ano, Jair Bolsonaro decidiu acabar com a pasta da Cultura, que, segundo ele, só serve para divulgar ideias marxistas e afrontar o que ele chama os valores tradicionais da família brasileira. Após uma chuva de protestos, cedeu parcialmente e acabou por transformar o Ministério da Cultura em secretaria, mas colocou nos postos chaves pessoas ligadas aos movimentos evangélicos e de direita mais radicais.

Ao longo de 2019, o governo Bolsonaro retirou financiamentos a filmes, peças e outras expressões culturais que expressavam pensamento livre e democrático, reduziu drasticamente o apoio à producção de cinema brasileiro, que vinha num processo de franco crescimento mas foi considerado imoral e esquerdizante. A intolerância chegou ao ponto de o próprio Jair Bolsonaro intervir pública e pessoalmente e mandar retirar do ar propaganda de bancos públicos que estavam a ser exibidas na televisão e que exaltavam a diversidade dos brasileiros e tinham entre os participantes actores negros ou gays, mas a citação pelo secretário de um discurso de um ministro de Adolf Hitler foi demais até para o governo ultra-conservador do presidente brasileiro.

Bolsonaro confirma demissão de secretário da Cultura e repudia ideologias totalitárias

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, divulgou esta sexta-feira uma nota a confirmar a demissão do secretário da Cultura, Roberto Alvim, na qual diz repudiar "ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas".

"Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência", diz o comunicado.

O chefe de Estado brasileiro acrescentou: "Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum".

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