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Correio da Manhã

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Senhora mãos limpas

Ninguém sabe muito bem o que pensa, quais as suas ideias para o futuro ou o que faz na vida privada. Mas é neste momento a figura política mais popular de Israel e tem hipóteses reais de vir a ser a próxima primeira-ministra.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Senhora mãos limpas
Senhora mãos limpas
Tzipi Livni, a discreta chefe da diplomacia que esta semana ‘tirou o tapete’ ao primeiro-ministro Ehud Olmert, é quase uma desconhecida para o grande público, o qual, no entanto, vê nela o futuro do país, acima de tudo porque é vista como honesta e incorrupta. Será um registo imaculado de escândalos o suficiente para fazer Livni seguir as pisadas de Golda Meir e tornar-se a segunda mulher a chefiar um governo de Israel?
Henry Kissinger costumava dizer que “90 por cento dos políticos dá má fama aos outros dez por cento”. Um dos países onde essa máxima melhor se reflecte actualmente é Israel, onde a classe política é olhada cada vez com maior desdém e desconfiança e nem o chefe de Estado escapa aos escândalos. No entanto, uma mulher tem-se destacado nos últimos anos pela positiva. “Existe uma crise de liderança em Israel e Livni é vista como uma possível solução. A sua modéstia é uma importante arma face à crescente exasperação do público com um sistema político demasiado macho no tom e criminoso nos actos”, afirmou recentemente o analista político Amotz Asa-El. “Tzipi Livni é vista como não corrupta, ela é a ‘senhora Limpa’ no meio da enorme crise de valores morais na política”, afirma, por seu lado, Ari Shavit, colunista do jornal ‘Haaretz’.
TRABALHOU NA MOSSAD
Tímida e discreta, é quase uma desconhecida num país onde toda a gente conhece de cor os percursos político-militares dos principais líderes. Livni, pelo contrário, defende a sua intimidade com unhas e dentes – sabe-se que é casada e que tem dois filhos, mas desconhece-se, por exemplo, qual é a profissão do marido.
Tal discrição virá, certamente, dos anos em que trabalhou na Mossad, os serviços secretos israelitas. Mais uma vez, ninguém sabe muito bem quais foram as suas funções – fontes falam em “trabalho administrativo”, outras atribuem-lhe um papel activo na ‘caça’ aos militantes palestinianos no estrangeiro e na operação que levou à destruição do programa nuclear de Saddam Hussein, em 1981.
Nascida no seio de uma família ultranacionalista – o pai, Eitan, foi chefe de operações do Irgun, organização terrorista que lutou contra a ocupação britânica antes da criação do Estado de Israel –, Livni formou-se em Direito na Universidade Bar-Ilan de Telavive, de onde saíram muitos dos ‘falcões’ do Likud. Foi, aliás, no Likud que iniciou a sua carreira política, onde chamou a atenção de Ariel Sharon, que fez dela sua protegida. Quando Sharon decidiu abandonar o partido para formar o Kadima, falou primeiro com ela e só depois com Olmert – dizem as más línguas que o primeiro-ministro nunca engoliu muito bem a afronta.
Sondagens recentes mostram que ela é a figura mais popular da política israelita e indicam que, em caso de eleições, o Kadima obteria o triplo da votação com ela à cabeça do que teria com Olmert. “Mais de um terço dos eleitores de Israel parece disposto a votar naquela que seria a primeira-ministra mais desconhecida de sempre”, afirmou o colunista Anshel Pfeffer, do ‘Jerusalem Post’.
É com estas credenciais que Livni se apresenta como alternativa a Olmert para a liderança do Kadima e do governo. Para alguns analistas, como Shavit, é manifestamente pouco: “Tudo aquilo que ela teve, politicamente, foi o Sharon que lhe deu. Ela nunca teve de lutar por alguma coisa ou tomar uma decisão difícil e nunca viu o lado feio da política”, avisa.
ASCENSÃO METEÓRICA
A FIGURA
Tzipi Livni nasceu em Telavive a 8 de Julho de 1958. Estudou Direito, cumpriu o serviço militar, atingindo o posto de tenente, e trabalhou durante quatro anos na Mossad. Dedicou-se depois à advocacia até ser eleita para o Knesset pelo Likud em 1999. A sua ascensão política acelerou quando Sharon se tornou primeiro-ministro, em 2001. Foi ministra da Cooperação Regional, Agricultura, Imigração, Habitação e Justiça, antes de se tornar ministra dos Negócios Estrangeiros e vice-primeira-ministra. É casada e tem dois filhos.
OPORTUNIDADE PERDIDA
O ‘golpe de Estado’ protagonizado por Livni na passada quarta-feira, ao exigir a demissão de Olmert por causa do relatório Winograd, não foi, para alguma imprensa israelita, mais do que mero fogo-de-vista. Segundo o diário ‘Haaretz’, Livni tinha o futuro do governo e do primeiro-ministro na mão: bastava-lhe ter-se demitido ela própria que o governo ruiria como um castelo de cartas. Ao denunciar a actuação de Olmert sem abandonar ela própria o governo, Livni deu, para o jornal, mostras de fraqueza e cobardia. “Há momentos em que nasce um líder. Esta não passou de uma oportunidade perdida”, afirma o jornal.
PRAGMÁTICA 'CONVERSÃO' POLÍTICA
Durante grande parte da sua juventude, Tzipi Livni defendeu o ideal do ‘Grande Israel’. Filha de sionistas, teve uma educação ultranacionalista e chegou a estar envolvida em movimentos radicais, participando em manifestações violentas contra a ‘diplomacia de vaivém’ de Henry Kissinger nos anos 70. Apercebeu-se mais tarde de que eram ideais incompatíveis com a ideia de um Israel democrático. “Acredito, como os meus pais acreditaram, no direito do povo israelita à totalidade da terra de Israel. Mas também fui educada a preservar os valores democráticos. Entre os meus sonhos e a minha necessidade de viver em democracia, preferi abdicar de parte da terra”, afirmou no ano passado ao ‘New York Times’. Tal pragmatismo transformou-a numa das principais defensoras da retirada unilateral de Gaza, o quer, por seu turno, lhe trouxe popularidade. “A imprensa israelita adora um ultranacionalista convertido”, graceja o colunista Ari Shaavit, do ‘Haartez’.
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