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Sindicalista com pecados

"Eu não entrei na política para largar o que me é devido" é a frase que define o antigo operário sindicalista, militante do Partido Trabalhista britânico desde os 21 anos e que na passada terça-feira, numa curta intervenção de 34 segundos, anunciou à Câmara dos Comuns que abandonaria a respectiva presidência a 21 de Junho. Para Michael Martin, político de 63 anos, católico, a demissão forçada pelo líder dos trabalhistas e primeiro-ministro, Gordon Brown, é a derrota estrondosa por um escândalo de pecadilhos, por causa do reembolso a parlamentares de facturas de despesas de alojamento e representação indiscutivelmente legais mas absolutamente imorais.

23 de Maio de 2009 às 00:30
Geoff Caddick, EPA
Geoff Caddick, EPA

Para o feitio de Michael Martin, cioso dos seus direitos, como qualquer sindicalista que se preze, o escândalo será injustificável: os membros da Câmara dos Comuns têm direito ao reembolso de 24 006 libras (cerca de 26 500 euros ) por ano em despesas de representação e alojamento e tratavam de sacá-lo contra facturas legais. O presidente – ou ‘speaker’, como lhe chamam em Westminster – não achava importante se o dinheiro dos contribuintes pagava táxis para ir às compras, limpeza da piscina e os mais incríveis gastos. O importante é que tinham direito às despesas e ninguém tinha nada a ver com o assunto.

Michael Martin tem uma visão absolutista do exercício da actividade política. Há notícia de que, em 2001, afastou uma secretária do gabinete da presidência da Câmara, Charlotte Every, porque ela o tratava por ‘Mr. Martin’ e não ‘Mr. Speaker’ (Senhor Presidente). Outro funcionário, há dez anos em funções, Sir Nicholas Bevan, teve também de se mudar em 2003, incompatibilizado com o ‘Speaker’, que o achava excessivamente protocolar e pomposo. Quando, há duas semanas, explodiu o escândalo das facturas dos parlamentares, a primeira reacção de Martin foi mandar apurar a fuga de informações e a falta de respeito para com a independência da Câmara. Não percebeu que eram os parlamentares que, cobrando sem vergonha dinheiros públicos, estavam a fazer cair a vergonha sobre um Parlamento com 814 anos de História.

Após 30 anos como deputado por Glasgow e oito e meio em ‘Speaker’, Martin receberá uma indemnização de 1,4 milhões de libras e deveria seguir para a Câmara dos Lordes. O opróbrio por que passou o Parlamento pode, contudo, levar ao afastamento de dezenas de deputados abusadores e à não passagem de Martin à câmara dos nobres. Era a forma de transformar uma vergonha política numa vitória da democracia.

METALÚRGICO NA ROLLS-ROYCE

Antes de ser dirigente sindicalista e depois político, o controverso 156º presidente nos 814 anos de existência da Câmara dos Comuns passou dez anos da sua vida como metalúrgico. Aprendeu o ofício em oficinas e subiu à ‘aristocracia operária’ na fábrica da Rolls-Royce, em Hillington. Após quatro anos de militância no ‘labour’, tornou-se aos 25 permanente duma secção sindical.

A FIGURA

Filho de comerciante de produtos náuticos e de empregada de limpeza de uma escola, MICHAEL JOHN MARTIN nasceu em Glasgow a 3 de Julho de 1945 e começou a trabalhar com 15 anos em oficinas de metalurgia. É militante do Partido Trabalhista desde os 21. Como manda a tradição dos católicos da cidade, é adepto do Celtic.

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