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Correio da Manhã

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SONDAGENS ELEGEM BARGOUTHI

Por entre as casas do clã Barghouti ondula a bandeira amarela estampada com o rosto do político palestiniano. A fotografia do deputado é uma imagem recorrente na casa de Aatef Barghouti, irmão mais velho de Marwan.
11 de Novembro de 2004 às 00:00
Os buracos daquilo que Aatef afirma serem balas israelitas também. Uma delas atravessou a janela da sala “enquanto as crianças lá estavam. É assim, a nossa vida”.
Aatef, de 55 anos, partilhou com Marwan o exílio na Jordânia, embora lá tenha chegado muito antes. “A mim, expulsaram-me em 1971 e só regressei em 1994, 40 dias depois do regresso de Marwan”, afirma. “Sempre foi uma criança inteligente, com grandes ambições. As pessoas gostam dele porque vem de uma família pobre e nunca se esqueceu dos seus. Ajudava os doentes e as famílias dos mártires”, explica, recordando o percurso político do seu irmão de 45 anos.
Como muito outros palestinianos, Aatef passa os dias a discutir a sucessão do líder máximo da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Yasser Arafat. A sua opção para a sucessão é clara: “Sim, Marwan seria um bom presidente se Arafat morrer. É o único político que tem apoio a nível nacional. Acredito que se candidatará às eleições, mesmo estando preso”, afirma.
A opinião de Aatef – um dos sete irmãos que formam a família Barghouti – é secundada pelo director da campanha com vista à libertação de Marwan Barghouti, Saad Nimr, que adiantou que o secretário-geral da Fatah na Cisjordânia “poderia candidatar-se às presidenciais”. “Está no seu direito, e ainda por cima tem grandes possibilidades de vencer porque é muito popular. Barghouti é um dirigente que nunca foi nomeado – foi eleito, está limpo e nunca esteve envolvido em qualquer escândalo de corrupção, nem nunca cedeu na defesa dos direitos dos palestinianos”, precisa Nimr.
A possibilidade de Barghouti – condenado a prisão perpétua por um tribunal israelita em Junho passado – se converter em referência política após o desaparecimento de Arafat é algo mais que uma especulação política, e encontra fundamento nas duas últimas sondagens realizadas pelas instituições palestinianas.
Numa delas, realizada pela Universidade de Bir Zeit a 20 de Setembro, Barghouti aparece em segundo lugar, logo a seguir a Arafat, nas escolhas dos consultados quando questionados sobre o seu preferido para presidente. Mas se Arafat desaparecesse, o resultado era concludente: Barghouti conseguia 51,4% da escolha popular, contra 28,2% de Ismael Haniya, um dos líderes do Hamas. Nenhum outro candidato da Fatah – o partido de Arafat – conseguiu bater os representantes do movimento islâmico e, o que é ainda mais significativo, tanto o primeiro-ministro Ahmed Qorei como Mahmoud Abbas, o número dois da OLP, não conseguiram mais que 1% e 0,5% de apoio, respectivamente.
Outra sondagem, do Centro Palestiniano para a Política e Investigação, chegou a uma conclusão semelhante, embora que, com Arafat incluído na contenda, Barghouti ficasse em terceiro lugar, atrás de Mahmoud Zahar, líder do Hamas. Se o líder palestiniano fosse excluído, então sim, Barghouti impunha-se. Mais uma vez, tanto Qorei como Abbas não ultrapassavam os 3%.
A sentença que pesa sobre Barghouti constitui impedimento para as suas ambições políticas, mas não é uma situação irreversível, afirma o analista israelita Zeev Schiff. “A História dá-nos inúmeros exemplos de negociações entre governos e líderes que estavam na prisão, como Nelson Mandela. Israel deve procurar o seu elemento palestiniano exemplar, e pode muito bem ser Barghouti”, afirmou.
FORTUNA SECRETA É ARMA CONTRA SUCESSORES
A fortuna de Yasser Arafat, que segundo a revista norte-americana ‘Forbes’ ascende a 300 milhões de dólares, tornou-se uma arma contra os seus possíveis ‘herdeiros’.
Os circuitos de financiamento da Autoridade Palestiniana são complexos, mas o certo é que o Fundo Monetário Internacional deu conta do desaparecimento de cerca de 900 milhões de dólares entre 1995 e 2002. O líder palestiniano teve sempre de comprar as suas lealdades, quer fossem de pessoas quer de movimentos políticos. É, por isso, lógico que a direcção palestiniana tente controlar a sucessão, quer se trate da transferência do poder quer da herança financeira.
Sabe-se que Arafat é um dos líderes mais ricos do Mundo, mas desconhece-se o montante exacto da sua fortuna. Assim, embora a ‘Forbes’ afirme que ele ‘vale’ 300 milhões de dólares, o jornal israelita ‘Haaretz’ adjudica o presidente palestiniano a um preço inferior, afirmando que ele possui bens no valor de 1000 milhões de dólares. Arafat terá repartido o seu dinheiro por várias organizações e, segundo a cadeia de TV CBS, mandava mensalmente 100 000 dólares à sua mulher, Suha, que vive em Paris.
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