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Correio da Manhã

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TAYLOR RENUNCIA À PRESIDÊNCIA DA LIBÉRIA

Charles Taylor renunciou esta segunda-feira à presidência da Libéria, entregando o cargo ao seu ‘vice’ e antigo companheiro de luta Moses Blah que, de acordo com o presidente do Gana, deverá permanecer em funções até à investidura de uma administração interina, em Outubro.
11 de Agosto de 2003 às 17:55
Charles Taylor
Charles Taylor FOTO: d.r.
A demissão de Taylor, que lançou em 1989, a partir da Costa do Marfim, a guerra civil que em oito anos o conduziu ao poder, deverá abrir caminho para o fim da violência armada na Libéria, um conflito que durante 14 anos ameaçou a estabilidade na África Ocidental. A saída de Taylor foi pedida no mês passado pelo presidente norte-americano, George W. Bush, sob ameaça velada de intervenção armada no país.
Os norte-americanos acabaram por limitar a sua intervenção ao apoio logístico da missão militar que entretanto foi enviada pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), composta por cerca de 800 homens, sobretudo nigerianos. Taylor exigiu a presença de soldados estrangeiros antes de abdicar da presidência e aceitou a oferta de asilo na Nigéria, para onde deverá viajar nos próximos dias, evitando a alçada da Justiça Internacional, que o acusa de crimes de guerra cometidos na vizinha Serra Leoa.
Na cerimónia de passagem de poder em Monrovia, rodeada por fortes medidas de segurança e com algumas horas de atraso, Taylor apresentou-se como “cordeiro sacrificado” – numa alusão à sua fé cristã – e alegou deixar um país com a Constituição intacta e contra a qual, avisou, nenhum outro Estado tem direitos de ingerência. Vivam e tenham paz, desejou Taylor aos liberianos, concluindo: “Deixo-vos com estas palavras de partida – Se Deus quiser, voltarei”.
“A GUERRA ACABOU”
O novo presidente liberiano, que tomou posse imediatamente após a resignação de Taylor, lançou já um aviso aos rebeldes para que adiram a conversações directas de paz. “Já não têm desculpas”, argumentou Moses Blah. Sekou Fofana, do movimento rebelde Liberianos Unidos para a Reconciliação e a Democracia (LURD), cujos combatentes controlam dois terços do país, incluindo parte da capital, Monrovia, respondeu: “Para nós, a guerra acabou”. A mesma ideia foi transmitida pelo presidente do Gana, John Kufuor, que esteve presente na cerimónia de transferência de poder.
Além de Kufuor, na qualidade de presidente da CEDEAO, participaram ainda na cerimónia o presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, na qualidade de presidente da União Africana, e o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki.
HERANÇA SANGRENTA
Taylor deixa na Libéria uma herança manchada a sangue, marcada pelos 200 mil mortos durante a guerra civil que o conduziu ao poder nas eleições de 1997 e por uma geração que nada mais aprendeu na vida que matar e ser morto. Alvo da justiça internacional por apoiar guerras em países vizinhos, Taylor não olha o passado com remorso: “A História ser-me-á simpática”, disse o presidente demissionário. A comunidade internacional acredita que a sua partida significará um ‘virar de página’ na História da Libéria, país fundado no século XIX por escravos norte-americanos libertados.
Taylor nasceu em 1948 e seguiu a pisadas do pai, formando-se nos EUA para ser professor. No golpe de Estado de 1980, conduzido pelas tribos Gio e Krahn, Taylor chegou a ter um cargo na administração, mas foi rapidamente afastado, quando o seu patrono, o chefe militar Gio, caiu em desgraça perante o presidente Samuel Doe, da tribo Krahn. Acusado por Doe de ter roubado 900 mil dólares de fundos governamentais, Taylor foi preso nos EUA, para onde tinha viajado, e passou um ano na prisão, até fugir, em 1985.
Depois da fuga da prisão nos EUA, Taylor reuniu forças combatentes na Líbia, altura a que remonta a sua relação com Moses Blah, o homem a quem entregou hoje o poder. Após o treino na Líbia, Taylor lançou em 1989, a partir da Costa do Marfim, a invasão para derrubar o regime de Doe. A guerra civil durou sete anos e provocou 200 mil mortos. Taylor venceu e, em 1997, apresentou-se como o mais forte candidato às eleições presidenciais, que venceu. O manto de controlo que estendeu sobre o território acabou por se rasgar nos últimos meses, com a LURD a lançar um movimento de revolta, que tornou a sua posição insustentável. Taylor acaba por sair por uma porta maior que o que se imaginaria e deixa o país enlutado e na miséria. O futuro da Libéria ainda não começou... mas como lamentavelmente é típico em África, nada garante que comece agora.
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