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"Temos de escolher os pacientes que salvamos": Médica relata drama vivido nos hospitais em Itália

Francesca é a autora da fotografia de uma enfermeira que cedeu ao cansaço e adormeceu encostada a uma secretária.
Correio da Manhã 26 de Março de 2020 às 11:34
Enfermeira italiana cede ao cansaço. Exausta, adormece na secretária
Enfermeira italiana cede ao cansaço. Exausta, adormece na secretária FOTO: Francesca Mangiatordi/@france_exa/via REUTERS

A médica italiana Francesca Mangiatordi é a autora de uma fotografia que mostra uma enfermeira que cedeu ao cansaço e adormeceu encostada a uma secretária.

Numa entrevista à TSF, a profissional de saúde de 40 anos relata a realidade que se vive nos cuidados intensivos do Hospital de Cremona, em Itália.

Francesca relembra o dia em que tirou aquela fotografia à colega, um dia exigente, com muita gente no serviço de urgência com febre e dificuldades respiratórias. Recorda que a enfermeira Elena tinha descansado muito pouco e pediu para descansar.

"Naquele momento, decidi tirar a foto, para que ela um dia pudesse recordar aquele momento. Recordar, sobretudo, como tinha sido difícil enfrentar este problema. Como estamos, ainda, a enfrentar", relata a médica à TSF.

A italiana refere que algumas situações têm sido improvisadas devido à falta de recursos, nomeadamente as camas e ventiladores. O hospital acabou por recorrer a macas de campanha da Proteção Civil para deitar os pacientes.

Na mesma entrevista à rádio portuguesa, Francesca revela que foram utilizadas outras alas do hospital devido à elevada quantidade de pacientes. "Houve momentos em que nos vinham as lágrimas aos olhos, porque não sabíamos como ajudar toda a gente", confessou.

Os dias no hospital tornaram-se numa questão de escolhas. Os médicos passaram a ter que selecionar os pacientes que tratavam em prole dos que não poderiam ser entubados, por exemplo. "Temos que selecionar os pacientes que devemos entubar e os que não devemos entubar. Esta é uma escolha que, obviamente, nenhum médico quer ter que fazer. É uma coisa que nos revira as entranhas", confessa Francesca, que admite ainda que acabam por escolher os mais jovens para salvar.

Os pacientes não têm qualquer contacto com a família. Perante um caso, os mesmos são recolhidos em casa e transportados para as unidades hospitalares. Já no hospital, e sem poderem receber visitas, os profissionais de saúde são muitas vezes os responsáveis por tentar animar os doentes. "A última coisa que muitos vêm é uma máscara", confessa Francesca na mesma entrevista.

Os pacientes com um quadro clínico menos grave estão a ser enviados para casa e a ser monitorizados por um médico que liga diariamente.

Apesar dos muitos profissionais de saúde infetados em Itália, a médica sublinha que este problema não se deve à falta de material de proteção individual, como máscaras, óculos, toucas, mas sim à proximidade necessária aos pacientes.

"Não podemos manter uma distância de segurança, porque temos que fazer auscultação eletrocardiogramas, exames, ajudamo-los a levantarem-se. Portanto, estamos muito próximos do paciente", explica à TSF.

A italiana vai a casa, mas mantém-se à distância dos dois filhos e do marido para não levar o vírus para casa. A quarentena é, para Francesca e para os restantes profissionais de saúde, uma medida constantemente repetida, mas necessária.

"O facto de nos últimos dias o número de novos casos ter reduzido é a prova de que ficar em casa baixa o número de contágios. Portanto, a ajuda que nos podem dar é ficar em casa", apela e termina a entrevista com uma mensagem: "tenham atenção e não subvalorizem esta situação. Não subvalorizem esta epidemia".

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