Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
7

Tragédia em Maputo

Maputo viveu ontem horas dramáticas na sequência das violentas explosões ocorridas no paiol das Forças Armadas de Moçambique, localizado no bairro de Malhazine, nos arredores da capital, a escassos quilómetros do aeroporto, que foi encerrado.
23 de Março de 2007 às 00:00
O impacto foi de tal ordem que até edifícios e montras no centro da cidade ficaram com os vidros estilhaçados. Instalou-se o pânico, com pessoas a fugirem e a tentarem encontrar um refúgio seguro, e gerou-se o caos no trânsito.
O Hospital Central começou a receber grande número de feridos, alguns com queimaduras graves e membros amputados. Não foi divulgado um balanço oficial de vítimas, mas segundo a Rádio Moçambique morreram três pessoas.
“A cidade tremeu. O ruído é ensurdecedor. Vê-se uma espessa nuvem de fumo que faz lembrar as imagens de Hiroshima ou Nagasaki”, contou um transeunte, ainda assustado, em declarações à Rádio, após as explosões, que começaram sensivelmente às 16h00 locais.
Na estrada que liga Maputo à zona do paiol via-se um intenso vaivém de ambulâncias e outras viaturas transportando feridos. Centenas corriam em direcção ao centro da cidade e, sempre que se ouvia uma explosão, muitos atiravam-se ao chão com medo de serem atingidos por estilhaços. Segundo algumas testemunhas, houve muitas pessoas que se refugiaram no mato. Os transportes rodoviários começaram a escassear e, horas após as explosões, viam-se longas filas à espera de autocarros para regressar a casa.
Altas temperaturas
Em declarações à televisão, o porta--voz do ministério da Defesa, Joaquim Mataruca, atribuiu as explosões a um curto-circuito e aconselhou a população da zona do paiol “a abandonar ordeiramente o local e procurar refúgio fora dos prédios vizinhos”. Horas depois, porém, os media afirmavam que as altas temperaturas que se fazem sentir em Maputo (36º) terão estado na origem da explosão.
As explosões projectaram morteiros e rockets para zonas residenciais, tendo o aeroporto sido encerrado. Segundo fontes contactadas pelo CM, um projéctil atingiu também o Hospital de Mavalane. Também foram atingidos a Praça de Touros e o centro comercial Shoprite.
As explosões afectaram gravemente as comunicações, registando-se dificuldades no acesso à internet. As estações de rádio e a televisão transmitiram os acontecimentos em directo.
Não preparado para uma tragédia destas proporções, o Hospital Central de Maputo lançou de imediato apelos para a comparência de pessoal médico e dadores de sangue. Assis Costa, médico naquele estabelecimento hospitalar, admitiu: “A situação é caótica. Há mortos, mas esses são encaminhados para a morgue.”
À porta do hospital, as cenas eram de horror. Uma criança chegou com o crânio desfeito numa carrinha de caixa aberta, debaixo de outros feridos. Uma outra viatura descarregou um idoso coberto de terra e já sem vida. Foi directamente transportado para a morgue.
Segundo a Rádio Moçambique, no paiol estavam armazenados cerca de vinte toneladas de equipamento obsoleto. Recorde-se que foi a segunda explosão deste ano no paiol. A primeira, também devido às altas temperaturas, ocorreu em Janeiro, mas foi menos grave e não causou vítimas.
NÃO HÁ VÍTIMAS PORTUGUESAS
As explosões não afectaram cidadãos portugueses, assegurou ontem o cônsul de Portugal em Maputo, Eduardo Oliveira.
“Falámos com médicos conhecidos e eles garantiram-nos que não deu entrada nenhum português, afirmou o cônsul, que se deslocou ao Hospital Central de Maputo. Alguns vidros de janelas do edifício do consulado ficaram estilhaçados, estando a ser vigiadas por seguranças.
António Pinheiro, vice-cônsul, diz não ter memória de um acontecimento desta gravidade no país.
MENSAGENS
CAVACO SILVA
O presidente da República, Cavaco Silva, enviou uma mensagem ao seu homólogo moçambicano, Armando Guebuza. “Em nome do povo português [...], sentimentos de profundo pesar, assim como a expressão das mais sinceras condolências e muita sentida solidariedade para com o povo irmão de Moçambique.”
ARMANDO GUEBUZA
O presidente de Moçambique apelou à serenidade e à calma numa curta declaração. Armando Guebuza cancelou a visita à África do Sul, que estava prevista para hoje.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)