Muitos feridos têm limitações físicas e emocionais severas por causa das gravíssimas lesões sofridas.
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A tragédia ocorrida na madrugada de 27 de Janeiro de 2013 na discoteca brasileira Kiss, na cidade de Santa Maria, interior do estado do Rio Grande do Sul, completou esta segunda-feira sete anos sem que qualquer dos acusados pela polícia e pelo Ministério Público tenha sido condenado ou ao menos julgado. Na tragédia, uma das maiores da história do Brasil, morreram carbonizados ou intoxicados 242 jovens, e outros 636 ficaram gravemente feridos, boa parte deles enfrentando sequelas até hoje.
A indescritível tragédia aconteceu pouco depois da uma hora da madrugada, quando Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda "Gurizada Fandangueira", contratada para animar a festa promovida por alunos de uma universidade da cidade, ergueu uma tocha que tinha na mão, como repetia normalmente em cada apresentação. A chama da tocha ateou fogo ao novo forro do tecto da discoteca, colocado pouco tempo antes por ordem dos donos da casa de espectáculos, e em pouquíssimos minutos todo o recinto estava tomado por chamas e fumo altamente tóxico provocado pelo material do forro.
Os mais de mil adolescentes e jovens presentes, quase o dobro da capacidade da casa, tentaram fugir em pânico, atropelando-se e pisando-se uns aos outros, mas nem todos conseguiram. A maior parte das vítimas fatais morreu perto da única porta de saída da Kiss, fechada pelos seguranças por ordem dos proprietários da discoteca assim que a correria começou para que ninguém saísse sem pagar a conta, e junto à casa de banho, por terem confundido a luz desse espaço com a que deveria avisar a localização de uma saída de emergência, que, na verdade, não existia.
Os únicos quatro acusados formalmente, o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos, o técnico de som da banda, Luciano Bonilha Leão, e os dois sócios da Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, chegaram a ficar presos por um breve período, mas um a um foram rapidamente soltos e aguardam julgamento em liberdade. Após inúmeros recursos e adiamentos, Marcelo, Luciano e Mauro têm julgamento marcado para março próximo em Santa Maria, e Elissandro conseguiu que o seu julgamento fosse transferido para a capital do estado, Porto Alegre, alegando razões de segurança.
Autoridades locais, como oficiais dos Bombeiros e da polícia, responsáveis pela verificação das condições de segurança da discoteca e concessão das autorizações para que ela funcionasse e que foram acusados inicialmente de receberem suborno para falsificarem laudos garantindo que estava tudo em ordem, acabaram por não ser formalmente denunciados pelo Ministério Público neste processo e ampliam o enorme rol de impunidade. Tal como o autarca da época e outras altas figuras da política da região, que supostamente sabiam de todas as irregularidades mas nada fizeram.
Até hoje, muitos feridos têm limitações físicas e emocionais severas por causa das gravíssimas lesões sofridas naquela madrugada, e para vários o tratamento será para a vida toda. Numa absurda inversão de valores, pais e outros familiares de vítimas estão a ser processados por promotores do Ministério Público e por autoridades a quem acusaram de conivência com as irregularidades que levaram à tragédia ou de não fazerem o que poderiam para identificar e punir os culpados.
Como em todos os anos desde o pavoroso incêndio que marcou para sempre Santa Maria, familiares, amigos das vítimas e cidadãos solidários lembraram a fatídica madrugada com homenagens, vigílias, marchas e até protestos silenciosos, mas nem por isso menos emotivos. Muitas pessoas usavam T-shirts com as fotos dos filhos, irmãos e amigos que perderam na Kiss, e os vários atos ocorridos desde a noite de domingo tiveram o seu ponto alto na madrugada desta segunda, com a emocionada multidão concentrada em frente ao local onde a discoteca funcionava exactamente à mesma hora em que sete anos atrás as labaredas começaram.
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