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Correio da Manhã

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Uzbeques pedem apoio americano

O movimento muçulmano de oposição no Uzbequistão, revoltado com a repressão violenta do exército na manifestação da passada sexta-feira em Andijan, pediu esta terça-feira à Administração norte-americana que os ajude na sua luta contra o regime do presidente Islam Karimov.
17 de Maio de 2005 às 17:07
Os militares patrulham activamente as ruas de Andijan
Os militares patrulham activamente as ruas de Andijan FOTO: reuters
Dezenas de activistas e defensores dos Direitos Humanos juntaram-se em frente à embaixada dos EUA em Tashkent, capital do Uzbequistão, apesar das várias tentativas da polícia para impedir a concentração.
Os manifestantes acreditam que está prestes a rebentar uma guerra civil no Uzbequistão, ex-república soviética que tem estado sob escrutínio internacional pela dureza do regime de Karimov, criticado por limitar as liberdades públicas, por fazer milhares de presos políticos e por recorrer à tortura.
O Uzbequistão é um dos principais aliados dos EUA na luta contra o terrorismo. Os norte-americanos têm naquele país várias bases militares, de importância extrema na guerra com o vizinho Afeganistão.
O silêncio da Administração Bush indicia o cuidado estratégico que está a ter nesta crise, onde os autoproclamados defensores do Mundo Livre se debatem com o dilema de poder perder uma plataforma militar. Os manifestantes em Tashkent pediram a Bush isso mesmo, que esqueça o valor militar do Uzbequistão e reconheça no presidente Karimov um repressor das liberdades, a fonte de um problema que pode despoletar uma guerra civil.
REGIME DESMENTE MORTES CIVIS
Na passada sexta-feira, o exército abriu fogo sobre milhares de pessoas que se manifestavam em Andijan (zona predominantemente muçulmana no Leste do país), em solidariedade para com um grupo de homens armados que tomou de assalto o principal edifício governamental na cidade.
O ataque teve também como alvos um aquartelamento militar, a principal esquadra policial e a prisão, de onde foram libertados todos os reclusos. Este pormenor é fundamental. É que a luta dos muçulmanos naquela região faz-se contra a linha muçulmana que Karimov quer impor à população. A resistência popular tem sido combatida nos últimos tempos com detenções de contornos meramente políticos.
Karimov não quis negociar com os revoltosos e deu ordens aos seus militares para que abrissem fogo em Andijan. Esta forma de repressão terá provocado entre 500 a 700 mortos civis, segundo revelaram algumas associações humanitárias. A Procuradoria-Geral do Uzbequistão garantiu hoje, no entanto, que nenhum civil foi morto durante os protestos em Andijan.
Certo é que – e apesar das promessas do regime – a cidade continua fechada à Comunicação Social estrangeira. Os jornalistas estão impedidos de se deslocarem aos locais dos tiroteios e de visitar cemitérios, hospitais e morgues. Dito por outras palavras, os jornalistas estão impedidos de confirmar a versão da Procuradoria-Geral da República do Uzbequistão. O que vêem é de forma furtiva e bastante limitada, auxiliados por populares, que os guiam por ruas estreitas, fora do campo de visão dos militares que patrulham a cidade, e os deixam ver, por exemplo, as muitas campas abertas num cemitério.
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