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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Vários portugueses entre os candidatos nas eleições autárquicas britânicas

"Não sou político, nem sequer quero ser eleito. O que quero é ajudar a desenvolver a região onde vivo", vinca Luís Miguel Lançó.

02 de maio de 2024 às 11:06

Preocupações ambientais e o desejo de ajudar a comunidade ou de desenvolver a região onde vivem levaram vários portugueses a candidatarem-se nas eleições autárquicas que se realizam esta quinta-feira em Inglaterra. 

Candidato pelo partido local Confelicity pela freguesia [ward] de Blenheim Park, em Southend-on-Sea, sul de Inglaterra, Luís Miguel Lançós começa por dizer à agência Lusa que não tem ambições políticas. 

"Eu não sou político, nem sequer quero ser eleito, não estou a fazer qualquer campanha. O que eu quero é ajudar a desenvolver a região onde vivo", vincou. 

A candidatura, explicou, foi a via que encontrou para tentar influenciar os decisores locais a apoiarem o projeto de criar um polo tecnológico na cidade. 

A ideia surgiu após trocar Londres, onde vivia desde 2007, por Southend durante a pandemia de covid-19 de forma a ficar perto do mar, mas com acesso fácil à capital britânica. 

Em 2023, deixou o trabalho num banco norte-americano para lançar uma 'startup' ligada à inteligência artificial.  

Na nova cidade, disse, encontrou um "discurso derrotista" e um aeroporto subaproveitado, apesar do "potencial para promover o empreendedorismo e a inovação" em setores como a aviação verde e a tecnologia espacial. 

"Os senhorios tratam mal os imigrantes"

Em Bristol, no sudoeste de Inglaterra, Moisés Santo é candidato na freguesia de Avonmouth & Lawrence Weston pelo partido dos Verdes. 

Nascido em Timor-Leste, de mãe portuguesa e pai timorense, reside no Reino Unido desde 2006 e desde o início se interessou em contribuir para a comunidade, que agora ronda as duas mil pessoas. 

Fundou uma associação de timorenses e uma equipa de futebol e tem promovido aulas de inglês e ajuda para timorenses tirarem a carta de condução e melhorarem as perspetivas profissionais. 

Foi Moisés Santo que abordou o partido britânico com interesse em envolver-se nas atividades locais por se preocupar com o ambiente, mas também por alinhar-se com a ideologia de esquerda "que ajuda as pessoas". 

"Os senhorios tratam mal os imigrantes, parece que não têm direitos", lamentou, referindo que quer melhorar as condições de habitação e aumentar a frequência dos autocarros. 

"Rainha da reciclagem" é do Porto

Deolinda Maria Eltringham também é candidata pelo partido ecologista, mas na freguesia de Hitchin Bearton, em North Hertfordshire, cerca de 60 quilómetros a norte de Londres. 

A portuguesa nascida no Porto, em 1959, cresceu em Moçambique até se mudar com a família para a África do Sul em 1975, após a descolonização.  

Casada com um britânico, instalou-se no Reino Unido em 1986 para Hitchin, onde a formação científica e a preocupação com as alterações climáticas a levaram a desenvolver várias iniciativas ligadas à reciclagem e poupança de energia. 

No ano passado foi declarada "rainha da reciclagem" pela revista Hertfordshire Life por ter evitado que 22 toneladas de artigos, desde canetas a escovas de dentes e diferentes embalagens de produtos, acabassem na lixeira. 

Deolinda Eltringham também é ativista do movimento "Make Votes Matter", que defende a substituição do sistema de maioria simples pelo de representação proporcional no Reino Unido. 

"Este é o maior obstáculo a uma verdadeira representação democrática na maior parte da política inglesa", defendeu. 

"Sou pró-europeu"

No nordeste de Londres, Valdomiro Lourenço é candidato pelos Liberais Democratas na freguesia de Hutton South, no concelho de Brentwood. 

Chegado ao Reino Unido em 2015, o conimbricense de 54 anos relatou ter assistido ao impacto do 'Brexit' em termos de xenofobia e de desemprego no setor automóvel, onde trabalhou. 

"Desde esse período que me filei nos 'Lib Dems' porque sou pró-europeu e é o único partido que tem uma posição mais clara em relação a isso", justificou. 

Apesar de Brentwood ter uma maioria dos Liberais Democratas, Lourenço tem pouca esperança de ganhar aos atuais autarcas conservadores, pelo que tem feito pouca campanha. 

A segurança, a construção de espaços desportivos para os jovens e a gestão das contas públicas têm sido algumas das questões levantadas. 

Eleições decorrem esta quinta-feira

Nas eleições autárquicas desta quinta-feira vão a votos cerca de 2.600 lugares em 107 autarquias. 

Os autarcas vão ser eleitos em distritos, distritos metropolitanos e autoridades unitárias, autoridades locais com diferentes dimensões e responsáveis por serviços como a recolha de lixo, espaços verdes, urbanização, manutenção de estradas e escolas.

Inglaterra, a região mais populosa do Reino Unido, possui 317 autarquias, cujos representantes políticos são escolhidos em anos alternados por mandatos de quatro anos.

As mesas eleitorais vão funcionar entre as 7h00 e as 22h00 e alguns resultados deverão ser anunciados ainda durante a madrugada, mas a contagem poderá prolongar-se por sexta-feira e sábado.

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