Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
8

VISITA DE BUSH DIVIDE ALIADOS

A visita do presidente George W. Bush ao Reino Unido, na próxima semana, está cercada de prenúncios de desgraça. O entendimento dos aliados sobre a campanha no Iraque parece não ser extensivo ao plano interno.
14 de Novembro de 2003 às 00:00
Uma nova cimeira anglo-americana decorrerá na próxima semana
Uma nova cimeira anglo-americana decorrerá na próxima semana FOTO: Eric Draper/epa
De facto, o reforço de segurança necessário para receber o líder americano está a dividir a Casa Branca e Londres, que não concordam nem com os números de agentes necessários para a operação nem com quem deve comandá-la.
Curiosamente, quando há cerca de dois anos a rainha Isabel II avançou com o convite, a vinda de Bush parecia ser uma boa ideia. O 11 de Setembro estava ainda bem vivo na retina, e fazia-se sentir uma onda de solidariedade inusitada com os EUA. Agora, em vez da popularidade de então, o ódio aos EUA foi renovado e reforçado.
Seja como for, o primeiro-ministro Tony Blair, a quem, mais do que à própria rainha, competirá fazer as honras da casa, vai receber o rosto público da América e Bush é hoje um homem cujos índices de popularidade estão em queda até no seu país.
Para Blair, igualmente a braços com uma onda crescente de contestação interna, a visita não podia ser mais inoportuna. Consciente de que os grupos pacifistas que em Fevereiro mobilizaram mais de um milhão de pessoas para desfilar em Londres contra a guerra não perderão a oportunidade de encenar novos "espectáculos" mediáticos, Blair apelou a que a polémica seja esquecida. E defendeu o "timing" da visita. "Penso que este é exactamente o momento certo para o presidente dos EUA vir aqui", afirmou, defendendo uma vez mais a guerra no Iraque como guerra de libertação. Bush já afirmou que vai aplaudir os protestos...
A GUERRA CHEGA A CASA...
Mas, com a aproximação da chegada do presidente dos EUA, prevista para dia 19, a guerra parece ter "contaminado" o território britânico. De facto, para além dos projectos dos manifestantes, liderados pela coligação "Stop the War", há uma guerra de poder em curso entre as autoridades britânicas e norte-americanas.
A Casa Branca e a Polícia de Londres não chegam a acordo quanto à dimensão e controlo da segurança da visita. O custo do aparato policial está estimado em quase 7 milhões de euros, e há já destacados para o efeito um reforço de 4000 agentes britânicos, cujas férias foram canceladas. Mas os americanos querem ter a última palavra, retirando o comando geral das operações aos britânicos.
Um problema adicional é o destacamento de agentes dos serviços secretos dos EUA. Quantos poderão viajar com Bush armados e que liberdade terão para agir em solo britânico é algo ainda em debate. Uma das questões a resolver é se, caso sejam forçados a usar as armas, deverão ficar judicialmente imunes.
Acresce que o presidente da Câmara de Londres, Ken Livingstone, contesta os planos para criar um cordão de isolamento que mantenha os manifestantes longe de Bush. "Criar uma situação na qual talvez 60 mil manifestantes fiquem ocultos suporia o fecho do centro de Londres, o que é inconcebível", afirmou.
BOTAS DE 'COWBOY' E 'OVELHAS'
A última vez que George W. Bush se encontrou com a rainha Isabel II foi em 1992. Bush era ainda apenas o filho de um outro Bush, e recebeu sua alteza real envergando umas botas de "cowboy" gravadas com a frase "God Save the Queen". Como se tal "informalidade" na escolha do guarda-roupa não bastasse, durante a recepção oficial o "pequeno" Bush perguntou a Isabel II se por acaso havia ovelhas negras na sua família. Agora, após três anos de presidência, o que causa apreensão em Bush não é o seu pouco à-vontade em situações solenes, mas sim a sua própria presença. Bush é, de facto, em vários sectores de opinião, o homem mais odiado do planeta e sobre ele recai a culpa de tudo ou quase tudo o que acontece de mau pelo mundo. Com a visita de Bush, Londres recebe também esse ódio.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)