Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
9

Xanana admite estado de sítio

O presidente timorense, Xanana Gusmão, ameaçou ontem decretar o estado de sítio para fazer frente à onda de violência originada pelo ataque das tropas australianas contra o major Reinado, que ontem continuava em paradeiro incerto. A Austrália autorizou entretanto o seu pessoal não essencial a abandonar Timor, no que poderá ser o prenúncio de uma evacuação geral.
6 de Março de 2007 às 00:00
Forças da GNR têm estado particularmente activas nos últimos dias e prevêem agravamento da situação
Forças da GNR têm estado particularmente activas nos últimos dias e prevêem agravamento da situação FOTO: António Dasiparu / Epa
“O país está a assistir a uma certa anarquia e a uma falta de vontade de certos segmentos da sociedade em contribuírem para a estabilização. Não se pode permitir que se continue a perder bens e vidas e que os cidadãos vivam num clima de insegurança. O Estado vai utilizar todos os mecanismo legais disponíveis, incluindo o uso da força quando necessário, para pôr fim à violência”, afirmou Xanana numa declaração ao país através da rádio e da televisão.
O presidente timorense ameaçou ainda que, “casos as medidas normais não sejam suficientes para aliviar a pressão criminal”, não hesitará em decretar o estado de sítio. “É necessário que o Estado cumpra a obrigação, que lhe cabe, de garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade públicas”, frisou Xanana, num discurso em que se referiu também a “algumas manifestações que, ao invés de trazerem à consciência dos indivíduos uma mensagem positiva que ajude na solução dos problemas, têm contribuído para provocar mais distanciamento entre as pessoas”.
O chefe de Estado timorense referiu-se às duas manifestações previstas para esta quinta-feira em Díli, uma da Fretilin e outra do Movimento para a Unidade Nacional, que poderão contribuir para o agravamento da tensão na capital timorenses. Recorde-se que, no fim-de-semana, fonte do contingente da GNR previu que esta seria “uma semana alucinante” devido às manifestações e à leitura da sentença (amanhã) do ex-ministro Rogério Lobato, acusado de ter distribuído armas a civis.
A madrugada de ontem voltou a ser agitada em Díli, com dezenas de cortes de estradas, apedrejamentos e ataques a residências em vários pontos da cidade, que forçaram a polícia das Nações Unidas (UNPol) e o contingente da GNR a trabalho redobrado. Segundo a comissária Mónica Rodrigues, porta-voz da UNPol, a “situação estava ser controlada” por aquela polícia, cuja missão incluía “desobstruir estradas e fazer face a eventuais distúrbios”. A mesma fonte afirmou que “não se têm registado incidentes graves, que não há feridos a lamentar” e adiantou que, desde o início da mais recente onda de violência, no fim-de-semana, “já foram detidas cerca de 50 pessoas”, na sua maioria “relacionadas com posse de armas tradicionais e comportamento desordeiro”.
Entretanto, o major Reinado continua a monte, apesar da gigantesca operação de caça ao homem que as forças australianas têm em curso na região de Same. O ministro australiano dos Negócios Estrangeiros, Alexander Downer, assegurou ontem que a prioridade das tropas é “apanhar o major Reinado vivo” e confirmou, por outro lado, que a Austrália autorizou o seu pessoal não essencial a abandonar o território timorense. Downer confirmou ainda que o seu governo tem um plano para evacuar todos o pessoal consular em caso de agravamento da situação no terreno.
LUSOS NÃO PEDIRAM PARA SAIR
O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, afastou ontem o cenário de uma operação de retirada dos portugueses em Timor-Leste, afirmando que até ao momento não houve qualquer pedido de repatriamento. Luís Amado adiantou que tem falado “várias vezes com Díli” e com o seu homólogo australiano, Alexander Downer, sobre a situação no território. O ministro, que falava em Bruxelas à margem de uma reunião de chefes da diplomacia da UE, indicou que “naturalmente que todos os voluntários que pretendam abandonar o território têm o apoio da embaixada e das autoridades portuguesas”. Entretanto, fonte próxima da embaixada de Portugal em Díli declarou ontem ao ‘CM’ que a situação na capital estava “mais calma” e que apenas em algumas zonas da capital timorense “os professores portugueses não trabalharam por precaução”. Para já não se equaciona a evacuação dos docentes lusos, que são quase centena e meia.
ISAAC ESTÁ ESCONDIDO
O deputado independente Leandro Isaac, que estava com o major Reinado no seu refúgio de Same antes do ataque das tropas australianas, afirmou ontem à Lusa, num breve contacto telefónico, estar escondido “em parte incerta”. “Estou sozinho com a juventude. Estou bem, na medida em que se pode estar nesta situação. Estou numa caverna, num buraco”, afirmou, revelando ter conseguido escapar ao cerco em Same porque as tropas australianas não o reconheceram. “Eu vi soldados australianos oferecerem cem dólares à minha frente por informações sobre o meu paradeiro, mas os jovens protegeram-me. Tenho a cabeça a prémio por cem dólares”, afirmou.
"ESCAPEI POR POUCO", Sérgio Tavares, jornalista da Renascença em Díli
- Correio da Manhã – Como está a situação aí em Díli?
- Sérgio Tavares – As coisas já não estavam famosas, mas desde o ataque contra o major Reinado começou uma onda de violência enorme, desataram a cortar estradas, a apedrejar casas e carros. A situação está muito complicada...
- As pessoas têm medo de sair à rua?
- Estão muitas ruas bloqueadas e não se vê muita gente porque ninguém da comunidade internacional se atreve a sair à rua. Hoje [ontem], quando começou a anoitecer, andei lá por fora e escapei por pouco... Eu ia de mota, passei perto de uma dessas barreiras e estavam a chover garrafas e pedras. Por acaso desta vez não me acertaram, consegui escapar, mas já me acertaram noutros dias. Todos os meus amigos, toda a gente que conheço já foi apedrejada.
- A polícia tem actuado?
- A polícia tem sido pouco eficaz. A única que tem feito alguma coisa é a GNR e não digo isto por ser português, é uma opinião consensual. Os outros, australianos, malaios, não fazem nada, fogem inclusive.
- Nas instruções que receberam da embaixada fala-se da possibilidade de evacuação?
- Não, nem sequer se põe essa hipótese, mas isso já tinha acontecido em Abril. Nessa altura foram evacuados os australianos e outros e quanto aos portugueses nunca se punha essa questão, apesar de na altura haver muitos professores que imploravam para sair. A posição da embaixada de Portugal em relação a isso é que sair, só mesmo em último caso.
- Tem falado com os portugueses que estão aí a dar aulas? Como é que eles estão?
- Os professores que vieram este ano são praticamente os mesmos que estiveram cá no ano passado e assistiram à crise, por isso já estão habituados a ouvir tiros, a não poder sair de casa, evitar certos lugares e tudo o mais. Há muitos que estão conformados com isso e não põem a possibilidade de regressar, mas há outros que conheço que, por eles, já tinham ido embora.
DESTABILIZAR ELEIÇÕES
A embaixadora timorense em Lisboa, Pascoela Barreto, afirmou que os grupos de jovens envolvidos na violência estão a ser “usados para destabilizar as eleições”
AUSTRALIANOS AMEAÇADOS
A Austrália diz ter informações credíveis de ameças contra os seus cidadãos em locais habitualmente frequentados por estrangeiros, como hotéis e restaurantes.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)