Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
8

Yusuf Adbi Ali, o motorista da Uber que foi um criminoso de guerra

Conhecido como o "Coronel Tukeh", Yusuf torturou dezenas de pessoas durante a guerra civil na Somália.
Mariana Óca e Catarina Correia Rocha 29 de Maio de 2019 às 19:22
Condutor da Uber acusado de crimes de guerra e tortura
Uber
Uber
Condutor da Uber acusado de crimes de guerra e tortura
Uber
Uber
Condutor da Uber acusado de crimes de guerra e tortura
Uber
Uber

O nome de Yusuf Adbi Ali está espalhado pela Internet ligado a inúmeros documentos e notícias onde são descritas as atrocidades que cometeu enquanto servia como comandante durante a guerra civil, na Somália, no final dos anos 80. Uma investigação do canal norte-americano de televisão CNN revelou o passado negro de Yusuf, que exercia a profissão de motorista da Uber no estado americano da Virginia. A empresa desconheceria toda a história.

Depois da queda do regime de Said Barre em Mogadíscio, capital somali, em 1991, Yusuf Adbi Ali fugiu para o Canadá. Em 1992, um documentário da Canadian Broadcasting Corporation, realizado no norte da Somália, revelou depoimentos de várias testemunhas acusando Yusuf de ter torturado e matado dezenas de pessoas.

Quando o documentário foi transmitido, Yusuf estava a viver em Toronto, no Canadá, onde trabalhava como segurança. Após a revelação do seu passado na comunicação social, o antigo militar acabaria por ser deportado.

Em 1996, Yusuf conseguiu entrar nos Estados Unidos com um visto que a mulher falsificou. Foi no estado da Virginia, que voltou a encontrar trabalho como motorista da Uber.

A facilidade com que, sem qualquer verificação de registo criminal ou dos antecedentes da sua vida, Yusuf conseguiu trabalho na Uber levantou suspeita. Para tentar perceber como é que o ex-militar, acusado de ser um criminoso de guerra - e conhecido como "Coronel Tukeh" no seu país - alcançou um lugar na empresa de transporte de passageiros, os jornalistas da CNN viajaram no seu Nissan Almita de cor branca.

"Trabalho na Uber a tempo inteiro. Mas prefiro trabalhar aos fins-de-semana, ganho mais dinheiro", começou por contar aos repórteres depois de ser questionado sobre o processo de candidatura à empresa.

Segundo os relatos, a única preocupação para a admissão dos motoristas passa pelo registo criminal dos candidatos. Mas Yusuf revelou: "se enviares a candidatura esta noite, dois dias depois talvez já estejas a trabalhar".

O passado do ex-militar acabou por gerar controvérsia em relação à eficácia do processo de verificação dos antecedentes criminais dos motoristas da Uber nos EUA. Além disso, levantou suspeitas relativamente à facilidade como aqueles que estiveram em contacto com o crime foram admitidos para trabalhar.

Segundo a CNN, foram milhares os motoristas que entraram nas empresas de transporte privado - a Uber não é caso único - com cadastro. Alguns deles, refere a emissora, serão até assassinos em liberdade condicional ou criminosos condenados.

Yusuf vai a tribunal e é acusado
Entretanto levado a tribunal, uma das vítimas de Yusuf falou pela primeira vez. Farhan Mohamoud Tani Warfaa contou que foi torturado, raptado e espancado em 1988 por soldados sob o comando do ex-militar e agora motorista da Uber.

Warfaa revelou como passou horas com as mãos e os pés amarrados atrás das costas, acrescentando que foi o próprio Yusuf que o baleou várias vezes à queima-roupa. O júri validou o seu testemunho, responsabilizando Yusuf Adbi Ali pelos crimes. Ele negou todas as acusações.

No passado dia 21 de maio, contudo, Yusuf acabou por ser condenado por todos os crimes que cometeu durante a guerra civil na Somália.

Uber reforça verificações
Nos Estados Unidos, a Uber reforçou a política de verificação de antecedentes criminais e agora inclui inspeções mais frequentes e desqualifica qualquer condutor condenado, bem como os motoristas que sejam acusados de crimes graves.

Em Portugal, esta terça-feira, o Polícia Judiciária portuguesa levou a cabo uma megaoperação de combate à corrupção nas emissões de licenças de condução dos motoristas das plataformas de transporte de passageiros em veículos descaracterizados, como a Uber ou Cabify.

Num total foram detidos oito suspeitos por associação criminosa, corrupção ativa e passiva para ato ilícito, falsidade informática, violação de segredo por funcionário e atestado médico falso.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)