Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
3

Zapatero acusa Rajoy de hipocrisia

O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, chamou ontem “hipócritas” aos que consideram a imigração “um perigo” e depois vão “à missa aos domingos e comungam”.
2 de Março de 2008 às 00:30
O visado era Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), a quem, dias antes, o antigo líder socialista Felipe González chamara “imbecil”.
Esta subida de tom dos ataques socialistas aos rivais conservadores desmente a intenção de Zapatero, reiterada quinta-feira, de usar “o sorriso e não o insulto”, durante a campanha eleitoral. No mesmo dia, num comício paralelo, González atacava Rajoy por se presumir mais moderado e prudente do que Zapatero. Inicialmente a campanha socialista demarcou-se do antigo primeiro-ministro, mas ontem recuou, agradecendo a González a “entrega” com que tem participado no processo (tem presença confirmada em vinte comícios) e pondo a tónica nos “quatro anos de insultos e acusações gravíssimas do PP”.
González rectificou entretanto o insulto, afirmando: “Rectifico, porque rectificar é de sábios”. Seguidamente instou o PP a fazer o mesmo.
Zapatero, por seu lado, contrastou a sua postura face à imigração com a “hipocrisia” e “xenofobia” do PP e afirmou ontem que os seus quatro anos de governo testemunham a forma como tem combatido a imigração ilegal. Ao contrário do que diz Rajoy, frisou, tem recorrido à repatriação de clandestinos, mas “com dignidade e com acordos com os países de origem”.
Sobre a estratégia dos rivais, o líder de governo considerou que procuram ganhar “criando incerteza na economia, na imigração e terrorismo”. Além disso, Zapatero criticou o facto de o PP procurar desmotivar o eleitorado para beneficiar com uma abstenção elevada. “Se esperam ganhar assim é por terem pouca confiança na democracia e neles mesmos”.
PARTIDOS MANIPULAM INFORMAÇÃO
A campanha eleitoral espanhola está a criar polémica pela falta de liberdade de informação a que está a sujeitar jornais, televisões e rádios. Os partidos políticos impedem, por exemplo, as TV, privadas e públicas, de recolherem imagens durante os comícios. As filmagens são feitas por equipas próprias, que enviam depois o mesmo produto para todos. Em sua defesa os partidos alegam que enviam as declarações integrais dos candidatos, pelo que cada TV pode depois fazer a selecção que entender. Pode ser verdade, mas não é menos verdade que nenhum partido filmará uma sala para mostrar, por exemplo, bancadas vazias ou um público desmotivado e crítico. Mas o controlo da recolha de imagens não é tudo. Os candidatos estão a tornar cada vez mais frequentes as conferências de imprensa durante as quais não aceitam responder a perguntas dos jornalistas, que se assim ficam reduzidos à condição de mensageiros da propaganda partidária.
ZAPATERO NAS MÃOS DA CATALUNHA
As sondagens projectam uma vitória de Zapatero mas sem maioria. Depois ficará nas mãos dos nacionalistas catalães, mas à sua maneira. É previsível mas interessante a forma como Zapatero prepara há quatro anos esse caminho. Amorteceu visões mais radicais do nacionalismo catalão no campo socialista, deixou cair o histórico Maragall e abriu pontes para a direita. Com pragmatismo e sem piedade. Ao estilo de Felipe González ou mesmo do velho Jordi Pujol...
DISCURSO DIRECTO
"PP USOU O TERRORISMO COM FINS PARTIDÁRIOS" Emílio Pérez Touriño, presidente da Junta da Galiza, falou ao CM sobre as eleições e o futuro do país
Correio da Manhã – O primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero é favorito?
Emílio Pérez Touriño – Sim. E não é pelo que dizem as sondagens, mas sim porque nesta legislatura desenvolveu um trabalho brilhante, que melhorou muito os níveis de bem-estar dos cidadãos. Este é o melhor trunfo do governo frente a uma oposição incapaz de expor um projecto alternativo, por estar demasiado ocupada em gerar crispação e romper consensos.
– Zapatero mentiu aos espanhóis sobre as negociações com a ETA?
– José Luis Rodríguez Zapatero actuou com total responsabilidade e, como todos os líderes de governo que o precederam, incluindo José María Aznar, tentou aproveitar uma oportunidade, a declaração de cessar-fogo da ETA, para acabar com a chaga do terrorismo. A oposição frontal de Rajoy a esse esforço tem sido absolutamente desleal.
– Qual dos dois partidos [PP ou PSOE] tem sido mais coerente perante o terrorismo basco?
– Ambos. Mas nesta legislatura o PP quebrou os consensos básicos, negou apoio ao governo e utilizou o terrorismo com fins partidários. Resta-me esperar que após as eleições o PP recupere a cordura e a linha de colaboração e apoio ao governo na luta contra o terrorismo.
– A Espanha está à beira da dissolução, como repete Rajoy?
– De forma alguma. Está hoje mais forte e mais unida do que nunca, porque tem um governo sensível à pluralidade e diversidade do Estado. O que desune e separa são as tácticas de confrontação postas em prática por Rajoy e o PP.
– As autonomias são um passo para a independência?
– Não. O êxito das autonomias radica em conciliar o respeito pela pluralidade com o esforço de solidariedade, em prol da coesão social e territorial.
– A Galiza quer ser mais autónoma ou independente?
– Nós sentimo-nos bem na Espanha, porque somos espanhóis, mas também porque se respeita a nossa personalidade histórica, cultural e linguística.
OS PARTIDOS NA ASSEMBLEIA DA GALIZA
O Parlamento da Galiza é composto por 75 deputados. Na última eleição, em 2005, o Partido Popular conseguiu 37 deputados, o Partido Socialista conseguiu 25 e o Bloco Nacionalista Galego 13.
DIFERENÇAS
75 EUROS
- Preço de um quarto duplo para uma noite no centro de Lisboa
99 EUROS
- Preço de um quarto duplo para uma noite no centro de Madrid
GALIZA
A comunidade autónoma da Galiza é composta por quatro províncias: Corunha, Lugo, Ourense e Pontevedra. O governo autónomo galego foi estabelecido em 1978 e os seus poderes reforçados pelo Estatuto de Autonomia de 1981. O texto classifica a Galiza como ‘nacionalidade’, reconhecendo a sua especificidade cultural e política. Desde 2005 a região é governada por uma coligação partidária englobando o Partido Socialista Galego (PSdeG) e o Bloco Nacionalista Galego (BNG). Apesar da designação, nenhum dos partidos que compõem o BNG defende a independência. Economicamente, a Galiza é uma comunidade mista: enquanto o Ocidente costeiro, onde se situam as principais cidades, é rico e industrializado, o Interior (Lugo e Ourense) depende da agricultura. Foi sobretudo destas áreas que a Galiza exportou mão-de-obra para o Mundo. As mais importantes comunidades galegas são as da Argentina, Uruguai e Cuba.
DIÁRIO DA CAMPANHA
PSOE: JOSÉ LUIS ZAPATERO
_ “Os que querem a abstenção [...] não podem ganhar, porque não confiam em si mesmos.”
- “Peço a todos que vão votar [...] para demonstrar [...] que este é um país digno e livre.”
- “A abstenção é o voto mais triste. [...] Quero ganhar com o voto da maioria e sem abstenção.”
PP: MARIANO RAJOY
- “Por fim percebemos que [Zapatero] queria tensão e crispação.”
- “[Zapatero] conseguiu que os preços subam até nos saldos e que as dificuldades durem de Janeiro a Dezembro.”
- “Aos 52 anos posso dar-me ao luxo de dizer o que penso em toda a Espanha.”
Ver comentários