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Zelensky diz que "cultura tem de ganhar" e peritos alertam para roubo de arte

Exposição "No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930" vai estar no Museu Nacional Thyssen-Bornemiza, em Madrid e réune 70 obras de artistas ucranianos.
Lusa 28 de Novembro de 2022 às 15:08
Zelensky
Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky
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Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky
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Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky
O Presidente da Ucrânia disse esta segunda-feira que "a cultura tem de ganhar" na guerra em curso no país, enquanto peritos em arte alertaram para a dimensão da espoliação e destruição de património cultural ucraniano pela Rússia.

O ataque da Rússia à Ucrânia, em 24 de fevereiro, foi um ataque "contra a liberdade" e a guerra não pode fazer-se apenas com "a força das armas" porque a cultura tem também "um papel importante", afirmou Volodymyr Zelensky, num vídeo enviado para a inauguração em Madrid, no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, da exposição "No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930".

A exposição reúne cerca de 70 obras de artistas ucranianos, 51 delas retiradas de museus da Ucrânia, quando as cidades do país estavam a ser bombardeadas por mísseis.

"Penso que esta exposição mostra aquilo que a Rússia está a tentar destruir com a guerra. Penso que esta exposição mostra o quanto a Ucrânia está ligada à Europa", afirmou Zelensky.

O Presidente ucraniano, que no vídeo vestia uma 'T-shirt' com a frase, em inglês, "sou ucraniano", sublinhou que as obras que compõem a exposição foram feitas nas primeiras três décadas do século XX, coincidindo com momentos "terríveis" e "muito duros" da história da Ucrânia e de toda a Europa, quando "a tirania" tentava conquistar o continente, "tal como agora".

"Como então, a cultura tem de ganhar", afirmou Zelensky.

Na inauguração da exposição, um dos comissários, Konstantin Akinsha, alertou para a destruição de património cultural e espoliação de arte pela Rússia nos territórios que tem atacado e ocupado na Ucrânia desde 24 de fevereiro.

"Não há nada comparável desde a II Guerra Mundial", afirmou, dizendo que será necessário ainda fazer um levantamento pelas autoridades para ter dados corretos e concretos, mas que há "violação de leis internacionais" e que os "tribunais internacionais" terão de investigar e julgar estes crimes.

Segundo os dados mais recentes da UNESCO (a agência das Nações Unidas para a Educação e Cultura), há 218 locais com registos de danos até 21 de novembro na Ucrânia por causa da guerra: 95 locais religiosos, 17 museus, 78 edifícios com interesse histórico e/ou artístico, 18 monumentos e 10 bibliotecas.

"Até à data, nenhum local classificado como Património Mundial da Unesco parece ter sido danificado", segundo a agência da ONU.

A mostra inaugurada, esta segunda-feira, em Madrid inclui obras nunca antes expostas a um público internacional, fora da Ucrânia, e outras de nomes conhecidos em todo o mundo mas que durante décadas eram conhecidos como sendo artistas russos e não ucranianos.

Um dos casos é um quadro de Volodymyr Burliuk, pintado entre 1910 e 1911, da coleção do Thyssen-Bornemiza, que durante anos esteve exposto com o título "camponesa russa", até um funcionário do museu espanhol de origem ucraniana ter chamado a atenção de que o autor era da Ucrânia e o nome da obra era, na verdade, "camponesa ucraniana".

O embaixador da Ucrânia em Espanha, Serhii Pohoreltsev, assim como funcionários do Museu Nacional e Arte da Ucrânia, em Kiev, de onde foram transportadas obras para esta exposição, sublinharam hoje como a Rússia "tentou sempre roubar" a identidade ucraniana "roubando os nomes dos artistas da cultura ucraniana", mas também ocultando e proibindo a exibição de algumas obras de arte ou enviando para execução dezenas de escritores, diretores de teatro e outros artistas.

"Num certo sentido, foi um genocídio cultural", mais um "ato de genocídio" da Rússia sobre a Ucrânia, defendeu o embaixador Serhii Pohoreltsev.

Para as autoridades ucranianas, o movimento artístico da Vanguarda na Ucrânia é "independente" e "merece estar escrito na história da arte do início do século XX".

A exposição "No olho do furacão. Vanguarda na Ucrânia, 1900-1930" vai estar no Museu Nacional Thyssen-Bornemiza, em Madrid, até final de abril de 2023 e depois seguirá para o Museu Ludwig de Colónia, na Alemanha, onde ficará até setembro do próximo ano.

Os comissários e as autoridades ucranianas gostariam que depois seguisse para outras cidades na Europa.

"Queremos que conheçam mais sobre a Ucrânia e não só através da guerra", defendeu outra comissária da exposição, Katia Denysova.

O comissário Konstantin Akinsha disse à imprensa portuguesa que gostaria que este apelo chegasse também a Portugal, onde existe uma grande comunidade ucraniana.

Segundo a informação divulgada pelo museu Thyssen-Bornemisza, esta exposição é "o estudo mais completo realizado até à data de arte ucraniana de vanguarda", que quer "celebrar o dinamismo e a diversidade" artística ucraniana e, ao mesmo tempo, "salvaguardar o património do país durante a intolerável ocupação atual de território pela Rússia".

As obras retiradas da Ucrânia para a exposição foram transportadas em "condições excecionais, transformando-se no maior transporte de arte legal que sai de um país devastado pela guerra até à data", segundo a mesma informação.

As 51 obras foram levadas de camião, por milhares de quilómetros, até à Polónia, coincidindo com alguns dos maiores bombardeamentos de cidades ucranianas desde o início da guerra, incluindo Kiev.

Ficaram ainda retidas durante dez horas na fronteira com a Polónia, que tinha sido fechada pela queda de um míssil em território polaco.

O embaixador da Ucrânia em Madrid agradeceu, esta segunda-feira, às autoridades polacas terem permitido a passagem das obras de arte naquele contexto.

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