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Podem argumentar que Saddam é um assassino e praticou actos que só os ditadores sanguinários são capazes. Do meu posto de observação, eu, que já sei há muito que ele é exactamente isso, um assassino, não me deixo impressionar por essa contra-argumentação. Não venho aqui para defender Saddam. Quando muito, venho dar-vos conta da triste surpresa que é a de constatar que se os papéis se invertessem, isto é, se Bush fosse prisioneiro de Saddam, o ditador iraquiano repetiria a papel químico aquilo a que os Americanos o sujeitaram.

A supremacia da Democracia, o respeito pelos Direitos Humanos, a consideração pelas convenções internacionais sobre prisioneiros de guerra, é tudo mandado às urtigas logo que se instale a lógica do vencedor. Costuma dizer-se que o poder corrompe. Neste caso é fácil afirmar que os vencedores quase sempre se transformam em ditadores no momento da vitória, impondo as suas regras como querem e entendem, sem nenhum respeito pelo quadro de valores que são o esteio da Democracia e que, em teoria, diferenciam a "praxis" dos homens sem princípios daqueles que reclamam uma permanente atitude civilizacional que não é abalada pela bebedeira das vitórias.

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Eu confesso a minha desilusão por não ver o homem que representa e dirige a maior potência mundial desperdiçar a oportunidade para mostrar ao mundo, e sobretudo ao mundo árabe, que em Democracia até os ditadores têm direito a um tratamento digno como prisioneiros e um julgamento imparcial.

Eu confesso que gostaria de ouvir Bush dizer que Saddam está preso mas não está a ser torturado e vai ser julgado por um tribunal competente e não fantoche, que decidirá a gravidade ou a eventual gravidade dos actos praticados, em vez de o ver dizer que Saddam merece a pena capital, sugerindo já a sentença que, com grande certeza, está já a ser urdida, porque essa é sua vontade de vencedor.

A justiça dos vencedores é uma falácia e o mundo árabe, que já viu tanta coisa ao longo da sua história milenar, percebeu outra vez que quando perde não tem direitos nenhuns. É neste cadinho, em que os mais fortes esmagam os mais fracos e em que a justiça dos vencedores é uma figura de retórica, que se forja o terrorismo mais violento. Eu não tenho dúvidas de que Bush converteu ao terrorismo mais uns milhares de jovens árabes indecisos que não entendem esta prepotência, apresentada sempre em nome da Democracia, e que preferem morrer de qualquer maneira do que passar pela humilhação do seu povo e da sua cultura. Estes jovens, os novos terroristas, não compreendem que Saddam, o aliado dos Americanos durante vários anos, seja tratado com aquela selvática atitude. Mesmo que odeiem Saddam e sejam seus opositores, não encontram a diferença tão prometida entre a democracia e a ditadura. Os restantes países do mundo ocidental, incapazes de impedir o que quer que seja, assistem da bancada central ao atropelo das normas convencionadas entre todos.

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As Nações Unidas, supostamente a entidade que devia mediar estas conflitualidades, não sabem de Saddam, ninguém sabe onde está o prisioneiro que salvou Bush de uma próxima derrota eleitoral, porque a prisão do ditador já justificou internamente as centenas de soldados americanos mortos em solo iraquiano. Bush não é só o presidente que manda no mundo. Ele é um dirigente que só cumpre as leis das Nações Unidas quando lhe apetece cumprir, ele não se considera obrigado a respeitar a Convenção de Genebra, apesar de estar assinada pelos E.U.A. Ele tem as suas leis, que não passam das suas regras próprias, da sua única vontade formada na Sala Oval da Casa Branca, sem dar satisfações a ninguém. Para aqueles que acreditam ou acreditavam numa convivência mundial marcada por um quadro de referências que todos respeitam é penoso assistir ao espectáculo deste vencedor.

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