Francisco Moita Flores

Professor universitário

A BANDA DO CHICO BUARQUE

30 de maio de 2004 às 00:00
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1. A semana foi sacudida pelo retumbante triunfo do Futebol Clube do Porto na Liga dos Campeões. E o País rejubilou. Ainda as canas dos últimos foguetes caíam dos céus, o Rock in Rio voltou a aquecer multidões, agora com o epicentro em Lisboa. E sem tempo para respirar, as portas de Portugal inteiro abrem-se ao Euro’2004 enchendo Junho de festa.

É obra. Dificilmente haverá outra conjuntura tão favorável à cura da auto-estima colectiva que todos dizem andar deprimida. E se o milagre vier e Portugal ganhar o Campeonato da Europa, então, Julho ficará mais luminoso do que é habitual. Portugal será a terra da festa. Onde não existe espaço para os peritos de serviço virem a terreiro explicar a dívida pública, diagnosticar a evolução do desemprego, a inflação, a segurança e outras bagatelas afins. Se tudo correr como o previsto, Portugal vai ‘abrasileirar-se’, samba e caipirinha, sol e macumba para a selecção vencer, e a fome nem existe, que Deus é Pai de todos, e sabendo-se que Ele é brasileiro, piedade terá dos seus irmãos que vão fazer o seu Carnaval por estes dias que vivemos. Ainda por cima a sardinha já chegou, as sangrias estão geladas e a superbock promete mais arraial, que a malta precisa de animação, pois a retoma está à porta, os maus dias já lá vão, a al-Qaeda despreza Portugal, e o terrorismo é coisa de países avançados que nós, graças a Deus, somos pobres e remediados e carteirista é o nosso ladrão de estimação, pacífico e conversador.

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Bom, existem alguns contratempos a este tempo de alegria. Temos eleições. Um acto desagradável e difícil que obriga uma pessoa a pôr uma cruz num papel. Como é que um homem de ressaca, dor de cabeça que parece que tudo estoira, tem a certeza de que não se engana no quadradinho? Ainda por cima com carrinhas vestidas de bandeiras partidárias, sem uma única flâmula azul-e-branca, que campeão da Liga merece festa imorredoira, ou de vermelho-e-verde, clamando pelos golos do Figo e do Pauleta.

Acho que o Chico Buarque passará por aqui e a festa merece a sua Banda a cantar coisas de amor, pois a festa dá para esquecer a miséria da favela. Pois é assim que o meu país se vai vestir: de amor e festa e risos e abraços. O calendário da festividade está previsto até finais de Agosto. Aí começam os comícios de reentré dos vários partidos políticos e regressaremos ao lugar comum, à banalidade, ao olhar pardacento dos dias cinzentos.

A verdade, porém, é que esta Festa, feita de muitas festas, por feito ou por natureza, não consegue entre os portugueses conviver com os desafios de futuro, futuro a médio e longo prazo, que o calendário implacável da política e da economia nos coloca como obrigação de vida. É que afinal de contas as eleições são mesmo importantes mas, sabe-se pelas sondagens, a maioria nem imagina o dia em que o evento irá acontecer. E nem se ouve uma palavra, um protesto, um queixume das elites a clamar pela democracia em perigo. A Festa feita de muitas festas creio que irá afogar esse momento de seriedade cívica que se trata de escolher quem nos representa no parlamento onde cada vez mais se decide o nosso destino e não admira que a abstenção, ao contrário do que José Saramago reclama com a sua proposta do voto em branco, pode ser um sopapo nos dias festivos, feitos de presente e de coisa nenhuma, que estamos a viver. A euforia, a filha mais alegre da irracionalidade, é por vezes a serpente que nos seduz, encanta, para no primeiro descuido liquidar a esperança.

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É claro que é importante viver a Festa das festas. Mas que não se distraia em excesso o leitor. É que não votar é permitir que outros decidam por nós. E o pior virá depois, quando a Banda passar quando ficar cada qual em seu canto/em cada canto uma dor/depois da banda passar/cantando coisas de amor.

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