Tenho me coibido de escrever sobre a RTP por razões de pudor. Tenho deixado passar sem correcção coisas distorcidas ou falsas que a seu respeito foram ditas pelos actuais responsáveis da empresa, que não escondem a ansiedade de serem transportados para o galarim dos heróis do País.
Estão passados cerca de dois anos sobre a minha saída como Director-Geral de Conteúdos, e embora não seja esta a ocasião para repor a verdade de todas as coisas é pelo menos o momento para não deixar passar sem um alerta as afirmações grosseiras ou a apropriação indevida de méritos que a outros pertencem. A mais abusiva talvez seja a que Luís Marques repetiu hoje na entrevista ao ‘Independente’ – “encontramos uma situação financeira próxima da falência. Tivemos dificuldades para conseguir pagar os salários a tempo e a horas”.
Eu não fui Administrador da RTP nem tive quaisquer responsabilidades nessa área. Mas é obvio que só a procura de vantagem política justifica a tentativa de vender a imagem de uma empresa com prejuízos calculados em milhões de contos numa outra saudável e rentável, só porque passou pelas mãos miraculosas dos Administradores actuais.
A RTP, na soma de todas as suas parcelas, está tão falida hoje como esteve ontem. O que permite a esta Administração vir para a calçada com trinados de peixeira a recomendar o seu produto é tão somente isto – O ministro Morais Sarmento forneceu todos os meios financeiros e outras facilidades à RTP. O anterior Governo não fez isso. Esta simples diferença juntamente com o ‘truque’ de juntar a RTP e a RDP encheu os cofres da empresa pública.
A dispensa de efectivos de que esta Administração se vangloria estava preparada pelas anteriores Administrações e só não se efectivou por falta de dinheiro do Estado para pagamento das indemnizações devidas. Recordo-me que havia uma relação de 400 trabalhadores que queriam abandonar voluntariamente a RTP e tenho ideia de que havia mais de 200 ‘abutres’ que deviam ser postos na rua porque não trabalhavam. Mas de novo surgiu o argumento fatal do dinheiro. Curiosamente, alguns desses ‘abutres’ voltaram à empresa e até desempenham lugares de chefia.
O tempo vai um dia trazer a verdade à tona da água e nessa altura é que se verá quanto gastou o Governo com a RTP em comparação até com áreas como as da saúde, educação e justiça que obviamente ficaram sem dinheiro para concretizar os seus planos.
P.S. – Eu não sei quem levou o Luís Marques para Administrador da RTP mas uma coisa é certa – eu não falei, não convidei, não contratei ninguém para ir para a RTP.
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