Acontece que a minha irmã, cinco anos mais nova, acabara de descobrir os discos dos Mini Stars (ou Onda Choc?), que flagelavam os meus tímpanos a partir da velha aparelhagem da sala. A contraofensiva foi radical: passei a posicionar as colunas do meu quarto junto à parede que separava as duas assoalhadas, arremessando notas distorcidas pelo volume que neutralizavam a ameaça da ‘pop’ infantil.
Tenho razoável crença de que devo alguns problemas de audição a tão gloriosas batalhas, mas aquilo que mais me perturba é o uso que dei àquelas músicas, por muito que pudesse repetir que estava apenas a proteger-me da falta de gosto de que a minha irmã então padecia.
Mas nunca passei ao nível seguinte, saindo à rua com uns amigos para impedir alguém de discursar, afogando-lhe as palavras com a cantiga que estiver pronta a sair da garganta. Quando isto acontece, a cantiga deixa de ser arma e transforma-se numa mordaça, inaceitável num regime democrático em que todos têm o direito a ouvir um discurso, mesmo que seja de Miguel Relvas.
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