Talvez seja este o momento indicado para lançar à discussão uma questão quente e algo polémica relacionada com o futuro dos clubes em Portugal.
É conhecida a dificuldade de sobrevivência de vários emblemas. Pequenos, médios, grandes. A introdução da Taça da Liga veio denunciar algo que era uma evidência: o nível médio da nossa prova futebolística mais representativa ainda não conhecera evolução suficiente para aguentar sem fissuras a introdução de mais competição.
O FC Porto mudou radicalmente de equipa em Fátima e foi eliminado; o Benfica cedeu aos pés do V. Setúbal quando a sua continuidade na prova já havia sido manchada na Reboleira; e o Sporting lá conseguiu dar a volta a um resultado desfavorável da primeira mão, passando à tangente depois de marcar quatro golos e sofrer outros tantos. Com o onze que representou o conceito de ‘máxima força’.
O Projecto Platini, ainda em discussão e se for para ser implementado, não vai permitir contemplações a países que não estejam muito bem classificados no respectivo ranking da UEFA. Se os senhores do futebol europeu e mundial olhassem para a realidade há muito que já tinham introduzido o factor ‘divisões’ (duas, pelo menos) nos quadros competitivos das selecções nacionais.
Para não haver nas fases de qualificação equipas de níveis muito diferentes a jogar entre si, sem o mais pequeno interesse para quem assiste.
Voltemos aos clubes e à realidade nacional, numa altura em que se discute, noutro campo, a fusão entre dois bancos privados, cada qual com a sua história e identidade.
Dir-se-á que o futebol não tem nada a ver com a frieza do mercado financeiro. Sem dúvida.
Dir-se-á ainda que o futebol sem paixão e rivalidade corresponde à amputação da sua génese. Aceitemo-lo. Mas chegou o tempo em que é preciso olhar para a realidade. Para os dedos e para os anéis.
Considerando o ponto de difícil sustentação a que chegaram Benfica e Sporting, o que é melhor: ir exibindo as fragilidades de duas grandes instituições ou reunir as suas virtualidades e constituir um clube forte e capaz de competir ao mais alto nível europeu?
A ideia pode parecer inexequível e porventura sê-lo-á no plano daquilo que são o País e os diversos ‘aparelhos’ que o alimentam.
Vendo bem, não se poderia construir uma nova paixão entre adeptos?
Primeiro passo: tirar as respectivas SAD da Bolsa. São ‘papéis’ sem valor, cuja valorização nunca mais sai do adro.
Segundo passo: vender um dos centros de estágio, por exemplo ao Estado. Com o apoio da CGD, que entrou em campo há muito tempo, uma das academias poderia servir para que nascesse finalmente a Casa das Selecções. Ou, em última análise, se um estudo de viabilidade económica o aconselhasse, escolher uma das infra-estruturas para ser o ‘viveiro’ do projecto da fusão.
Dois estádios separados por um par de quilómetros não faz nenhum sentido. Sobretudo quando é difícil enchê-los. Em tese, o somatório dos sócios do Benfica e do Sporting proporcionaria enchentes, seria possível construir um plantel muito mais forte e acabaria, igualmente, aquela ideia de o ‘sistema’ proteger ou penalizar cada um dos clubes. Saudável também por esse lado. Seria o regresso a um certo ‘centralismo democrático’ que tornaria mais visível a clivagem entre Lisboa e FC Porto, mas talvez a lógica das fusões pudesse estender-se a outras zonas do País e a outros clubes.
Há cada vez mais ilhas e menos continente. Num país periférico europeu que se debate com vários problemas no seio da UE, é preciso mais continente. Que nos interessa ter tantas ‘ilhas’ se elas depois vivem num estado de vegetação absolutamente cruel?
Por outro lado, tornar-se-ia possível fazer uma avaliação ponderada dos passivos e dos activos. Do ponto de vista desportivo, o objectivo seria apostar fortemente na Formação e aproveitar o melhor que os dois clubes têm. Arrancar com um novo tempo de exigência. Bons gestores (desportivos), bons treinadores, bons jogadores. Uma grande equipa para a Europa e para o espaço intercontinental.
É um debate sensível. As gerações mais antigas terão dificuldade em entender, no plano exíguo da paixão, um projecto de fusão desta natureza. Mas as novas gerações, que preferem ficar em casa a jogar Playstation ‘com’ o Cristiano Ronaldo do que irem para a rua jogar a bola com o Zé ou o Chico, só irão aos estádios se o espectáculo valer a pena.
É um combate e uma fusão a favor da qualidade e da produtividade. Seria um grande exemplo de maturidade democrática até para o próprio País.
Fica a ideia como contributo (construtivo) para um grande debate. O futebol tem de preparar-se para discutir ideias e não fazer o que tem feito (com a ajuda dos ‘media’ do regime), que é rejeitar qualquer perspectiva de evolução.
NOTA Só quem tem os filhos nos colégios pode achar que a liberalização do ensino secundário, sem regime de faltas, é um factor de atracção escolar. De facto, não vivemos todos no mesmo País.
NOTA 1 Pinto Monteiro pôs completamente a nu a realidade do sistema judicial.
NOTA 2 A declarada impotência do procurador-geral da República para resolver alguns dos cancros da sociedade expressa bem este bloqueio em que Portugal vive.
NOTA 3 A fusão dos bancos privados encerra, primeiro, a ruptura e, depois, a eterna questão do poder.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt