Quando um português defende Israel, normalmente ele é de Direita. E quando outro defende os palestinianos, normalmente é de Esquerda. Não foi sempre assim. Durante mais de metade do século XX, as direitas – europeia, portuguesa e americana – eram anti-semitas. As direitas religiosas culpavam os judeus por terem ‘matado Cristo’ e as direitas económicas por serem ‘usurários’. O general Franco combateu a sua guerra civil contra "maçons, comunistas e judeus". E Salazar marcava os passaportes judeus com tinta vermelha. Este violento anti-semitismo europeu teve infelizmente o seu apogeu sinistro com a Alemanha nazi.
Ao mesmo tempo, a formação do Estado de Israel foi sempre apoiada pela Esquerda europeia e, depois da Segunda Guerra Mundial, teve Estaline como impulsionador, fornecendo as armas. Os primeiros líderes, Ben Gurion ou Golda Meir, eram russos e socialistas. E as primeiras comunidades na Palestina, os kibbutzs, eram de inspiração soviética.
Contudo, nos anos 70, o tema girou 180 graus. Na América, o Congresso Mundial Judaico impôs-se como poderoso lóbi e influenciou Hollywood e a política. Os choques petrolíferos e o terrorismo causaram antipatia contra os árabes nas direitas, ao mesmo tempo que Arafat e a "causa palestiniana" marcavam pontos à esquerda. Quando Reagan chegou, em 79, o Mundo já invertera simpatias: as direitas eram agora pró-Israel, e as esquerdas pró-palestinianos. E assim tem sido até hoje.
Este apego emocional a causas alheias turva as ideias. As pessoas preferem culpar a pensar. Israel tem razão porque o Hamas lança rockets contra as suas cidades. Pois... Israel não tem razão porque está a usar uma força desproporcionada contra populações indefesas. Pois... Já dizia Clausewitz que a guerra é a continuação da política por outros meios. O ataque a Gaza é isso mesmo: como vai haver eleições em Israel em breve, e quem está à frente nas sondagens é a oposição do Likud, os partidos do governo de Livni (o Kadima) e Barak (o Labour), fizeram uma guerra para... ganhar as eleições. E quanto ao Hamas, serve-lhe que nem uma luva esta invasão "brutal", que provocou, pois continuará a beneficiar do estatuto de protector das "vítimas", com que justifica carnificinas e atentados.
Portanto eu, que estou de fora, não tenho simpatia por lado nenhum. Na Palestina, não há bons nem maus, só maus. E quando ambos os lados querem a guerra, não há nada mais a dizer.
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