Que, acredito, não serão tão poucos como isso, tendo em conta o senhor que se assina, alguém a que o tempo e o diletantismo dos últimos 15 anos não terão desmobilizado a legião de fãs - afinal de contas, Johnny Marr foi "metade" de um dos mais influentes grupos de "pop" e "rock", ainda recentemente votado pelos leitores do "New Musical Express" como melhor banda de sempre, os Smiths. E bastará lembrar, por exemplo, que num concerto lisboeta dos The The, de Matt Johnson, a invasão de palco registada destinava-se a abraçar o guitarrista de ocasião: Mr. Marr, claro.
Nem se pode dizer que, desde o anúncio de abandono dos Smiths, em 1988, Marr não tenha feito múltiplas provas de vida. Além de parte dos Electronic, com Bernard Summer (New Order), e de uma colaboração continuada com Matt Johnson, cito de cor: marcou presença em discos de Beck, Billy Bragg, A Certain Ratio, Charlatans, Every-thing But The Girl, Bryan Ferry, Neil Finn, Bert Jansch, M People, Kirsty MacColl, Oasis, Pet Shop Boys, Pretenders e Talking Heads. Não é pouco…
A questão estava em saber quando é que o rapaz assumia um disco em nome próprio, com canções de sua lavra e orientação musical independente. Depois, faltava perceber se o peso do passado lhe permitiria matar de vez o "fantasma" de Stephen Patrick Morrissey, o carismático cantor dos Smiths. "Boomslang" é uma resposta categórica a todas as dúvidas, mostrando-se um soberbo álbum de canções rock, encorpadas, bem cantadas (surpresa!) pelo próprio Marr e capazes de "explicar" quanto vale ainda o génio inquieto de um enorme guitarrista, versátil e não balofo de exibicionismo, duro quanto baste, melódico e intenso na medida das necessidades. Ainda por cima, Marr aparece superiormente secundado por uma secção rítmica notável e que se mostra capaz de lhe "aparar os golpes" de asa: o baterista é Zak Starkey, filho de Ringo Starr e que ultimamente andara em digressão com os regressados The Who, o baixista é Alonza Bevan, "roubado" aos Kula Shaker.
Quanto às canções, não há tempos mortos nem se sente necessidade de renegar as influências colhidas. O single escolhido é a última canção, "Bangin' On", poderoso e marcante, de refrão forte, guitarra a rasgar, com leves toques psicadélicos mas sem maneirismos de ocasião. Aliás, o mesmo mote já fora deixado na abertura, com "The Last Ride" e "Caught Up", poços de simplicidade e eficácia, mais motivos de celebração. Já "Down On The Corner" e "Something To Shout About" representam a "dose" Smiths que, secretamente, também se desejava ver passar por aqui. E, para quem queira mais incursões, "Need It" pode ter nascido das vivências com Matt Johnson, tal como "You Are The Magic" não esconde a aprendizagem com os Electronic. Mas há mais, muito. E, dadas várias voltas a esta estreia de Johnny Marr & The Healers, apetece dizer que, afinal, ainda há heróis. Este, ao menos, está vivo e recomenda-se. Sem receio de efeitos secundários ou sequelas, a não ser o vício.
Quem conhece o passado de RY COODER, sabe que este guitarrista de blues, de rock e das melhores latinidades, não é rapaz de discos maus. Quem não andou a dormir na forma, não ignorou o acontecimento chamado "Buena Vista Social Club", que ressuscitou a música cubana no exterior. Agora, a festa faz-se a duas guitarras, a de Cooder e a do lendário cubano Manuel Galbán, no notável "Mambo Sinuendo" (ed. Warner), fusão de estilos de raiz e de múltiplas idades da música. Soberbo e contra a corrente. n Será Sintra a nova capital musical de Portugal? Pela qualidade dos concertos no Centro Cultural Olga do Cadaval, apetece pensar que sim. Na próxima sexta--feira, 21, cabe a vez aos GAITEIROS DE LISBOA, grupo que mistura a tradição e a inovação em doses sábias. O alcance de "Invasões Bárbaras", "Bocas do Inferno" e "Macaréu" justificam o carinho e a presença. E quem sabe que - como se prova em "Dança Chamas", disco ao vivo - é no palco que o grupo chega ao plano máximo, já reservou bilhete…
Chamam-lhe "electro punk". Mas só porque têm que arranjar rótulo para um disco pretensioso, gratuitamente agressivo, fraco de ideias e canções. O colectivo TRASH PALACE assina "Positions" (ed. Última), é orientado por um francês, Dimitri Tokovoi, e é um desfile de talento desperdiçado - Brian Molko dos Placebo, Alison Shaw dos Cranes, Jean-Louis Murat, a actriz e realizadora Asia Argento, até um desamparado John Cale, tudo para um resultado final que não convence nem contagia. Tanta parra…
Os resultados finais da Music Control - estatística que apura as canções mais tocadas na rádio portuguesa - relativos a 2002 espelham a vergonha nacional. Das 100 mais tocadas, só dez são portuguesas. Dessas dez "resistentes", seis aparecem no último quarto da lista, abaixo do 75.º lugar. E os nossos melhores posicionados são JOÃO PEDRO PAIS (com "Não Há") e GNR (com "Vocês"), em 22.º e 23.º lugares, respectivamente. Ainda acham que vale a pena continuar a discutir a "crise" da música portuguesa?
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