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Antes que este 2002 termine, e aproveitando a tradição de formular os melhores votos para o 2003 que aí vem, o que estou fazendo, socorro-me do velho hábito jornalístico do balanço de fim de ano, mas desta vez para uma autocrítica do que tenho pensado sobre a actuação do maior partido da Oposição. E venho penitenciar-me por, apesar de todos os dados apontarem no sentido contrário, ter ingenuamente persistido em conceder ao Partido Socialista o benefício da dúvida.

Com efeito, num texto publicado no Correio da Manhã há precisamente três meses (ainda que escrito algumas semanas antes) levei a minha relutância em acusar Ferro Rodrigues (por não estar a fazer a oposição construtiva que prometera) ao ponto de achar que se perfilava num horizonte próximo "um clima de oposição saudável, como se esperaria de um grande partido".

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Ora, a verdade é que eu não só estava enganado, como tinha a estrita obrigação de saber que o estava. Bastaria ter recordado os últimos tempos, em que o PS, revelando uma crispação política desmesurada enquanto procurava reencontrar a "identidade de esquerda", se empenhara numa oposição hipertrofiada e truculenta – como eu próprio a definira.

Não consigo absolver-me desse pecado de apreciação benevolente e cega que me levou a esquecer, por exemplo (um entre vários) a forma como o PS, apesar da responsabilidade que tivera em transformar a RTP num sorvedouro do erário público, não hesitara em inflamar os ânimos dos trabalhadores daquela empresa contra as medidas do actual Governo.

Na realidade, eu deveria ter presente que o novo secretário-geral dos socialistas, para além do facto de afirmar ser a crise económica da responsabilidade deste Governo, se mostrara incorrigível, sem a menor disposição para ajudar Durão Barroso a combatê-la.

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O meu julgamento inicial apontara, aliás, para um cenário em que o PS reunira todas as forças, numa marcação cerrada, para atacar o Governo, infiltrando todas as brechas, assaltando cada ponto fraco, criando ao menor pretexto um embaraço, uma cilada.

É isso que tem feito e continuará a fazer, como o provam as pressões junto ao Presidente da República para um ministro ir ao Parlamento "dar explicações" ou as acusações primárias de um Jorge Coelho, que fala em eleições Autárquicas e parece já sonhar com as Legislativas.

Mas, não fora isso, bastariam as primeiras e lamentáveis decisões da bancada parlamentar socialista para confirmar o meu anterior cenário de uma marcação cerrada para, antes de tudo, desgastar o Governo e, objectivo último, pôr em causa a coligação e precipitar a sua queda. Estou a referir-me, por exemplo, à comissão de inquérito sobre o caso do Benfica, a comissão de inquérito sobre as demissões na PJ e, last but not least, a rejeição na generalidade e ao condicionamento do voto na especialidade, do Orçamento de Estado para 2003.

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Até a mais superficial das análises pelo mais superficial dos observadores conduzirá, por certo, à conclusão de que toda a actividade parlamentar do principal partido da Oposição se tem concentrado no ataque insistente e acintoso aos eventuais calcanhares de Aquiles do Governo, os ministros da Defesa, da Justiça e do Trabalho, por coincidência, todos do CDS/PP. Dir-se-ia que o denominador comum das intervenções da bancada socialista é esse ataque, que o PS pretende corrosivo e demolidor, empenhados como os socialistas estão em derrubar o Governo.

O líder dá o mote e todos o seguem, com a particularidade de cada um tentar ser mais destrutivo que o outro. Manter-se-á esta atitude irresponsável em 2003? - eis uma das grandes dúvidas.

A única coisa que se sabe é que o Ano Novo está à porta e que, por mais que o desejemos, dificilmente será melhor do que este.

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