Desafiava ela 'Come Away With Me' e, por razões que agora me escapam da memória mas que, em simultâneo, me têm rendido alguns exercícios de autoflagelação, não fui nessa. Mais me irritou a 'onda' gerada em torno desta filha distante de Ravi Shankar quando ela recebeu nada menos de oito Grammies e dobrou a gloriosa fasquia dos 18 milhões de cópias vendidas em todo o Mundo de um álbum que valia como uma estreia em nome próprio.
Talvez tenha entrado aqui em linha de conta a minha rendição incondicional diante de Diana Krall (ainda mais depois de se tornar a senhora 'de' Elvis Costello) e a minha própria descoberta de uma 'diva' recém-saída da adolescência, chamada Jane Monheit. Talvez, simplesmente, não quisesse vê-las destronadas por esta dama que chegava ao consumo sem passar pelo culto. Penitencio-me. E duplamente.
Antes de mais nada, porque este 'combate' sem sentido me levou a gozar com um amigo adorador de Miss Jones, só porque ele a caracterizara como uma pioneira do 'country jazz'.
Recordo, inclusivamente, que o tentei amassar com a promessa de encontrar uma rainha para o 'tecno-folk'. Parvoíce minha: ‘Feels Like Home' (ed. EMI-VC, à venda amanhã) vem confirmar, em boa parte das 13 canções que, podem ficar descansados, não dão direito a espécie alguma de azares, que a fronteira entre as duas áreas, tão distintas nos formatos a que mais nos habituámos, se esbate diante da voz, das escolhas melódicas e instrumentais, dos rústicos mas insuperáveis arranjos que Norah Jones escolhe. Depois, porque andei a desperdiçar horas e energias com o alimento destas rivalidades, facto que me leva agora a recuperar 'Come Away With Me', uma porta a que se segue esta, de 'Feels Like Home', e a reconsiderar esses inúteis 'rankings'.
Não deixei de gostar de Diana nem de Jane, tive oportunidade para recomendar com entusiasmo – que mantenho – a voz e o disco de Katie Melua (agora segundo classificado na lista de encomendas da Amazon… atrás deste 'follow-up' de Norah).
A receita é simples: melodias de corpo inteiro, voz solta (e, convenhamos, mais próxima da doce secura segura de uma Emmylou Harris ou de uma Dolly Parton, de resto convidada de honra neste álbum, do que de uma Ella ou de uma Cassandra), instrumentação sempre no registo do q.b., sem exageros, produção exímia ou não estivesse em campo esse 'velho marinheiro' chamado Arif Mardin, alguns requintes de malvadez (muito especialmente nos convites feitos a Levon Helm e ao 'gigante' Garth Hudson, parte integrante de uma saudade chamada The Band), muito piano a marcar, uma tranquilidade que só as temáticas e alguns desassombros rítmicos vêm abalar.
Em 'Feels Like Home', pasme-se, não há compassos de espera – o que não quer dizer que haja pressas. Canções como 'What Am I To You?', 'Those Sweet Words' ou 'Toes' têm lugar cativo entre as eleitas das próximas semanas, para já não falar nas versões de Townes Van Zant ('Be Here To Love Me'), Tom Waits ('The Long Way Home') e Duke Ellington ('Melancholia' rebaptizada como 'Don't Miss You At All', final de disco em 'fade out'). É um caminho, cada vez mais largo e cada vez mais claro, para o prazer. Pronto, está dito: a menina é mesmo linda…
Não se confundem estes ILYA, trio de Bristol, capital do 'trip hop', com os homónimos da Califórnia. Um autor, Nick Pullen, um produtor, Dan Brown, e uma cantora, Joanna Swan assinam um álbum de estreia, 'They Died For Beauty' (ed. EMI-VC), que durará todo o ano. Canções mágicas e temperadas de cordas, metais e silêncios, uma inquietação que embala, nove canções que não queremos ver acabar. Entre a Bossa, o 'jazz', a electrónica e uma voz de sonho mora a perfeição. Para ouvir, agora e sempre.
Depois de Maria Rita, eis o segundo capítulo de uma bela temporada de espectáculos latinos. O senhor da Galiza que aí vem nos próximos dias – sábado, 14, no portuense Rivoli, segunda, 16, no lisboeta CCB – é mestre CARLOS NUÑEZ, dono de quatro álbuns e uma colectânea que chegariam para acabar de vez com qualquer crise de fé na 'folk'. Mais do que um virtuoso instrumentista, mais do que um inspirado compositor, eis um maestro da alma, das raízes e dos futuros que há na tradição. A não perder.
Ainda não chegou aos 30 anos esta nova-iorquina que cruza a 'raiva nos dentes' de Alanis Morissette com a doçura planante de Hope Sandoval. No entanto, já vai no terceiro álbum, que se arrisca a aumentar a lista dos desconhecidos por cá. Depois de 'Comatised' e 'I Tried To Rock You But You Only Roll', LEONA NAESS atinge a maturidade como compositora e autora, com o produtor Ethan Johns a ajudar à 'limpeza do som'. 'Leona Naess' (ed. Geffen) é um sobebrbo disco de autora, ao alcance via Net.
Está a caminho dos 80 anos (em Maio próximo) mas não passa de moda. Será talvez a última grande referência viva e activa dos homens da "chanson" e teima em não se vulgarizar. Em 'Je Voyage' (ed. Capitol), CHARLES AZNAVOUR navega entre o formato clássico, a Bossa Nova, o seu 'swing' particular, os soberbos arranjos orquestrais e até uma tangente… ao Fado. O álbum, soberbo, sedutor, sem golpes de rins, emocionante, abre com uma canção chamada 'Lisboa', tal e qual. Será que nem assim cá chega?
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