Francisco Moita Flores

Professor universitário

A pátria do dinheiro

23 de dezembro de 2012 às 01:00
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De vez em quando, surge um ruído estranho, em nome de um patriotismo de alcova, sobre a origem dos dinheiros das empresas ou fundos de investimento que acorrem a concursos ou compras de grandes empresas privadas e públicas. Mas é beatice dirigida e, se levássemos a sério os protestos, chegaríamos à conclusão de que o dinheiro de Angola não presta, sendo que todos os outros euros ou dólares são bonzinhos e amigos dos portugueses. Aquele que vem de Angola, não. É corrupto, é sujo, gera desconfiança. Agora, o debate reacendeu-se porque uma empresa angolana, a Newshold, que já investiu muitos milhões de euros em Portugal, veio afirmar que vai investir mais, com interesse específico na possível privatização da RTP.

Não conheço tal empresa, desconheço se parte do capital da RTP vai ser privatizado, mas conheço a forma como se gera dinheiro através de fundos de investimento, iguais em todo o mundo, sobretudo os mais poderosos, para não perceber esta pirosice preconceituosa contra Angola. A verdade é que a produção de gigantescos fundos de investimento, que, sublinhe-se, em Portugal não existem, titulados por grandes empresas alemãs, americanas, inglesas, holandesas, apaparicadas por serem as entidades bondosas e sérias que não levantam suspeitas de negócios menos claros, tem as suas origens no mesmo princípio fundador das offshores mais suspeitas. É dinheiro sem Pátria. Dinheiro vindo de muitos lugares, alguns deles bem tenebrosos, ligados ao branqueamento de capitais de armas, de droga, de exploração sexual, de trabalho escravo, à especulação irracional dos ‘mercados’ e mais porcarias do género.

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Angola tem sido amiga. Não só investindo em Portugal, mesmo quando maltratada sem outros fundamentos que não sejam os preconceitos neocolonialista ou de superioridade moral, como recebendo e salvando centenas de empresas, milhares de quadros técnicos e operários portugueses que naquela terra encontram o sustento e a possibilidade de sobrevivência que o seu próprio país não lhes dá. Para lavar dinheiro, Angola não precisaria de Portugal. Dá nas vistas e é bem mais fácil em outros países europeus. Fá-lo por reconhecer uma cultura comum. Revela grandeza, coisa que a pequenez nacional jamais compreenderá.

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