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Agora, a série americana Newsroom (em Portugal no canal TV Series) entra pela redacção adentro — em ficção mesmo. Escrita por Aaron Sorkin, o mesmo de The West Wing, cria um canal ficcional para mostrar os dilemas de jornalistas que pretendem fugir da agenda noticiosa dos concorrentes noticiando realidades gritantes ignoradas pelos outros. O jornalismo televisivo norte-americano teria atingido tal degradação dos ideais da profissão que esta redacção ficcional vai mais longe, desmentindo mentiras e desinformação doutros canais.

Enfrenta, porém, um mesmo problema: precisa da publicidade, paga de acordo com a audiência. Os conflitos com os proprietários marcam o dia-a-dia. Para sobreviver à perda de audiência, tem de noticiar um caso de jornalismo tablóide a que a concorrência dedica, com êxito, atenção exagerada. O argumento é uma parábola, uma estória moral, alertando para a queda de valores primários e do jornalismo televisivo que para ela contribui. Sorkin sabe que escreveu uma utopia, mas é isso que pretende: mostrar, pelo choque do contraste, como o telejornalismo poderia ser.

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Tal como Jon Stewart e Stephen Colbert utilizam a comédia para desmontar a desinformação e contradições oportunistas do mundo político e jornalístico, Newsroom usa a ficção: desmonta a realidade pela realidade ficcional alternativa. A série renova um recurso conhecido na ficção: em vez de inventar casos que sirvam a narrativa, o argumento pega em casos reais de 2010-11 — o derrame de petróleo no Golfo do México, o assassínio de Bin Laden, a irrupção do Tea Party na direita americana — mas mostra-os trabalhados por uma redacção alternativa às reais. O tom altamente liberal, na acepção em termos de liberdade e valores cívicos da informação, é mitigado por uma exibição exagerada de patriotismo em alguns episódios e pelo facto de o protagonista, apresentador do noticiário, ser um republicano que se sente traído pela direita radical que parece vingar no seu partido. Longe da perfeição estética e narrativa, Newsroom é importante como parábola, retrato do estado moral do telejornalismo americano. E, sem querer, mostra um problema do jornalismo, a endogamia profissional e sentimental: tudo se passa dentro da redacção, nem chefes nem redactores saem à rua, recolhem toda a informação na Internet e só se dão e saem à noite entre si.

A VER VAMOS

RECOMENDO O SILÊNCIO A QUEM NUNCA SE CALA

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Bento XVI dedicou em Janeiro a sua mensagem do Dia Mundial das Comunicações à necessidade do silêncio como contraponto à sofreguidão da palavra em excesso. A TV é um media palavroso, mais do que a rádio, apesar da imagem. Escrevi várias vezes sobre o tema, uma delas quando o próprio Bento XVI, na missa no Terreiro do Paço, pediu à multidão silêncio para reflexão: comentadores de TV, entre eles um padre, continuaram a falar, interrompendo a intensidade do momento em directo. Acontece também em transmissões de ténis, que exigem silêncio durante as jogadas: há comentadores que não se calam. Patético é que, apesar de prometerem dar todas as notícias, as TV votaram a mensagem do papa sobre o silêncio – ao silêncio.

JÁ AGORA

E QUE NÃO LARGAM O TELECOMANDO

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A audimetria sempre registou quebras de audiência no Verão, em especial em Agosto: há férias, mais tempo ao ar livre e repetições na TV. A audimetria criativa da GfK, porém, conseguiu o milagre: ela registou em Agosto a mais alta audiência desde que começou. Devem ser os telespectadores "acamados" com que em tempos a GfK se justificou. Tadinhos, não tiveram alta.

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