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Em Fevereiro de 1907, D. Carlos explicou deste modo as suas últimas opções políticas ao príncipe Alberto do Mónaco, seu amigo: “Considerando que as coisas aqui não iam bem, e vendo os exemplos de toda a Europa, onde não vão melhor, decidi fazer uma revolução completa em todos os procedimentos do governo daqui, uma revolução a partir de cima, fazendo um governo de liberdade e de honestidade, com ideias bem modernas, para que um dia não me façam uma revolução vinda de baixo, que seria certamente a ruína do meu país.”

Esta carta revela que o rei, em 1907, mantinha as mesmas ideias que Augusto Fuschini lhe notou em 1892. [...] A “revolução de cima” era algo que o rei pensava ter de dirigir pessoalmente: “Até ao momento, tenho tido sucesso, e tudo vai bem, até melhor do que eu julgava possível. Mas para isso, preciso de estar constantemente na passerelle e não posso abandonar o comando um minuto que seja, porque conheço o meu mundo e se o espírito de sequência se perdesse por falta de direcção, tudo viria imediatamente para trás, e então seria pior do que ao princípio.”

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Esta “revolução” começara a 19 de Maio de 1906, quando o rei nomeou João Franco chefe do governo. [...] Franco era então um político que estava fora dos dois grandes partidos da “rotação constitucional”, o Progressista e o Regenerador. Durante anos, D. Carlos tentara defender esses partidos, em que via os pilares do regime. Mas em 1906 convenceu-se de que estavam desprestigiados e incapazes de levar a cabo a modernização do País.

Em João Franco, que já tinha seu ministro em 1890 e entre 1893 e 1897, D. Carlos reconheceu as qualidades de coragem política e de honestidade pessoal para prosseguir um programa de reformas. Franco podia ter mau feitio e modos imperiosos, mas era carismático, determinado, um sincero liberal – e um dos poucos políticos sobre o qual não corriam rumores de corrupção. D. Carlos deu-lhe por isso meios para governar. E em Maio de 1907, quando a restante classe política se uniu para forçar o rei a demitir o governo, D. Carlos resistiu e deixou Franco decretar leis com o parlamento fechado, antes das novas eleições marcadas para 5 de Abril de 1908 (era a isto que então se chamava “ditadura”: legislação sem prévia sanção parlamentar).

Alguns dos políticos mais irritados aliaram-se então a um grupo de republicanos e avançaram com uma conspiração para depor o rei. Foi dessa conspiração que saiu o grupo armado que assassinou D. Carlos a 1 de Fevereiro de 1908.

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(D. Carlos, Lisboa, Temas e Debates, 2007, pp. 306-307)

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