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Daniel Oliveira não tem de fazer contraditório, como num programa jornalístico. Aceitando a entrevista autobiográfica íntima, os conhecidos estão previamente disponíveis para se "expor". Estão lá para isso: entregam-se a Oliveira como a um padre no confessionário. Exibir a vida privada em público e não a um homem obrigado ao segredo é um fenómeno psicossocial da sociedade mediática originando por todo o mundo programas de entretenimento confessional de famosos.

Como constrói Oliveira as entrevistas? Faz perguntas indirectas ou metafóricas, para iludir a essência da entrevista: a cusquice. Encaminha-as de modo a que o entrevistado se vá "abrindo" até abordar algum "caso" mais falado. Oliveira revela-se capaz de tecer suavemente a teia de perguntas. Pelo encadeamento de perguntas, o entrevistado poderá dizer o que não esperava, mesmo que lá esteja para se desvendar "por dentro".

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O espectador sabe à partida que haverá confissões de "pecados" antigos, excessos de juventude, etc. Dado que aceitaram a devassa da vida privada, as lágrimas dos entrevistados fazem parte duma espécie de contrato não escrito entre entrevistado, programa e espectador. São um clímax da televisualidade, a expressão física, visual, das emoções.

Confissões de erros e evocações (mãe!… pai!… filhos…) dão ao programa um carácter moral, exemplar: líderes de opinião fornecem ensinamentos de vida "como ela deve ser" num álbum de "imagens da vida moral".

Ao contrário do que sucede nas entrevistas jornalísticas, as de ‘Alta Definição’ são sujeitas a uma montagem intensíssima das declarações. A ordem pode ser alterada. Cada resposta é estilhaçada em pequenos fragmentos, para cortar palavras, ou hesitações, ou para dar mais animação ao entretenimento. A montagem é mascarada com efeitos de cor sobre as imagens e com música de fundo imparável, criando melodrama e uma ligação "natural" entre os fragmentos.

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Os entrevistados dizem-se sem maquilhagem, mas as entrevistas são depois carregadamente maquilhadas por efeitos técnicos, música, adição de fotos e legendas e em especial pela montagem. Mais que entrevista, ‘Alta Definição’ é um artefacto de TV bem construído. Pode ser que um dia ainda vejamos Daniel Oliveira entrevistando sem maquilhagem: sem música, sem efeitos técnicos e especiais, sem montagem, em directo.

A VER VAMOS

FERNANDO LOPES, 1935-2012: RESISTIR ATÉ AO FIM

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Fernando Lopes, homem franco, íntegro e bom, foi um artista do cinema e um histórico da TV. Realizou pelo menos três dos melhores filmes portugueses: ‘Belarmino’, ‘Uma Abelha na Chuva’ e ‘O Delfim’. Em 2008, escrevi, sobre o documentário que João Lopes lhe dedicou, uma crítica que era mais sobre ele, monumento de dignidade artística, e sobre o desprezo do Estado a projectos seus. Numa carta de agradecimento, que não era necessária, pois a crítica não se escreve para isso e aquela era apenas justa e verdadeira, Fernando Lopes escreveu-me: "Espero resistir a esta catástrofe do audiovisual português – sem desígnio nem estratégia. No fundo, acho que sou um ‘resilient’ e não um sobrevivente." Não incomodará mais a mesquinhez nacional com a sua arte.

JÁ AGORA

O DUPLO ÓDIO DE CLASSE

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As indignações políticas e comentadas à promoção do Pingo Doce têm nome: ódio de classe. E duplo: contra o empresário Soares dos Santos, sem papas na língua e crítico do governo de Sócrates; contra o povo, que a chamada esquerda adora abstractamente e odeia concretamente. Despreza pessoas que ganham 600 euros e aproveitaram uma promoção que lhes valia 10% do salário.

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