A Selecção fez a sua obrigação. Não massacrou. Não nos deu um espectáculo de ‘ballet’ com bola, mas amealhou os três pontos da ordem. Sem pressas, nem grandes primores, assinou o ponto. Mas o portuguesinho é assim. Quer sempre mais e melhor. O que só abona a favor dele. Devíamos ser assim em tudo. Mas um pouco de lucidez nunca fez mal nenhum a ninguém.
Todos queríamos mais. Exibição mais convincente. Mais golos. A bola a correr mais. Os jogadores a dar o litro. Os adversários esmagados e com os olhos em bico. Scolari, mais pragmático, privilegia o amealhar pontos e zangou-se com os comentadores. Chama-lhes ignorantes. Que nem sequer sabem quanto pesa uma bola ou quantos gomos tem. Que são bons é para o palavreado, mas nunca serão técnicos. É verdade. Mas Scolari não precisava de ser tão mauzinho. Já teve tempo para aprender que um dos encantos do futebol é todos podermos mandar uns palpites. Fazer a nossa selecção. Dar a táctica. Mostrar como sabemos mais que qualquer treinador. Demonstrar como, connosco no banco, o resultado seria sempre outro e, necessariamente, melhor.
O mundo do futebol é isto. A mais abrangente das democracias.
Scolari zangou-se porquê? É criticado? E daí? As críticas que lhe são feitas são suspiros de amor quando comparadas com as críticas feitas diariamente aos ministros da Saúde, Agricultura e da Educação. De quem ninguém espera êxitos nem alegrias. Mas apenas destruição.
Nem eu, que não sou comentador, me dispenso exibir os meus ‘talentos’. Dá-me a ilusão de que participo. É ainda mais ilusório e gratificante do que o voto em democracia. É verdade que não sei quanto pesa, ou quantos gomos tem, uma bola. Nem quantos pitons tem uma chuteira. Nem sequer a medida exacta, ao centímetro, de uma baliza. O meu negócio é outro. É ver a esfera mágica a dançar sobre a relva. Vê-la sair dos pés de um executante e saltar para os pés ou cabeça de outro com um rigor milimétrico. Esbugalhar os olhos com uma finta que até aí julgávamos impossível e que deixa o adversário estatelado, sem saber para que lado está virado. Aplaudir, desesperado, uma defesa “impossível” do guardião adversário. Ficar incrédulo com um monumental frango do nosso guarda-redes. Passar mais tempo a olhar para o relógio do que para o relvado (ou o ecrã da tv) quando o perigo espreita. Este é que é o meu negócio.
Por mim, Scolari está perdoado. Zangou-se, mas não mentiu. Venham de lá mais três pontos contra o Irão e mais três contra o México e até lhe prometo que vou saber quantos gomos tem uma bola.
Não é grande consolo, mas duma coisa pode Scolari ter a certeza: as pessoas têm muito mais confiança nele, no comando dos seleccionados, e nos resultados que pode conseguir (por mais limitados que eles venham a ser) do que no Governo desta nação que só pelo futebol sai do fosso.
Guterres, Barroso, Lopes e Sócrates (para não irmos mais longe) têm vindo a fazer o percurso inverso. Atiraram-nos para o nível dos piores. Por eles ninguém sairia de casa, usaria cachecol ou colocaria uma bandeira no carro ou à janela.
É triste. Para nós e para Scolari, mas é verdade. Que lhe sirva de consolo! Porque nós não temos consolo possível. Saiam onze iranianos bem passados para o almoçinho de amanhã!
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