F. Falcão-Machado

Embaixador

Anos bissextos

29 de fevereiro de 2008 às 00:30
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Ora, já desde o tempo dos Romanos que essa acumulação das diferenças entre o ano civil e o ano solar era factor de perturbação. Júlio César quis resolver o problema, com efeitos muito nocivos na vida económica do Império, chamando a Roma um astrólogo egípcio, Sosígenes. Este corrigiu aquela discrepância acrescentando um dia por cada quatro anos, num novo calendário que ficou conhecido por “juliano”. Esta solução foi revista no Concílio de Niceia (325 d.C.), preocupado em estabelecer um método de marcação da data da Páscoa. É interessante constatar, aliás, o tipo de matérias que a Igreja abordava à época – funcionando como um poder supra-estadual com competências técnicas de que nem sempre os Estados dispunham – e a sua repercussão internacional. Em 1582, seguindo as instruções do Concílio de Trento, o Papa Gregório XIII retomou a questão e criou o chamado “calendário gregoriano”, para o qual chegou a pedir o parecer do cosmógrafo português Pedro Nunes. Nesse calendário, ainda hoje vigente, mantiveram-se os anos bissextos por se ter apurado então que o “ano trópico” (tempo de uma rotação da Terra em torno do Sol) durava 365,2425 dias.

Não nos vamos embrenhar aqui na complexidade de cálculos que a fixação de um calendário implica mas, segundo os especialistas, aquele resíduo cronológico acumulado obrigará um dia (lá para o ano 4000, dizem…) a efectuar novas correcções. Recorde-se que foi na passagem do séc. XVI para o séc. XVII – quando as questões astronómicas, mescladas com as teológicas, foram decisivas na marcação de certas datas essenciais – que surgiram as mais vivas polémicas sobre o funcionamento do cosmos. Essas disputas envolveram nomes como os de Copérnico e Galileu e o próprio Camões parece não lhes ter sido indiferente quando, no final de “Os Lusíadas”, premiou Vasco da Gama com o acesso ao segredo da “grande máquina do Mundo”.

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