A designação tem origem no Brasil. Tornaram-se célebres nas praias do Rio de Janeiro, particularmente em Ipanema, as razias levadas a efeito por bandos de miúdos delinquentes que desciam organizadamente das favelas e percorriam vastas zonas frequentadas por banhistas roubando tudo o que lhes viesse à mão. Foram imagens que a partir da década de 80 correram mundo e tornaram-se num dos maiores quebra-cabeças para a política de turismo do governo brasileiro que, de repente, viu fugirem-lhe milhares de turistas que por medo desprezavam as delícias tropicais brasileiras.
Os bandos de crianças delinquentes – a maioria dos jovens têm idades entre os 12 e os 18 anos – são o produto das grandes metrópoles. O ‘arrastão’ de Carcavelos é apenas um indício desta brutal conversão que transformou Lisboa numa enorme mancha demo-urbanística que, em nome da funcionalidade da capital, alastrou e absorveu os concelhos limítrofes numa amálgama imensa de pessoas com determinações tão diferentes que não é fácil reproduzi-las de forma extensiva. Massificação, pobreza, exclusão, marginalidade, dependências tudo se joga e desenvolve em função dos mitos produzidos pela metrópole – o prazer, a competitividade, o consumo.
A federação de bandos que atacou na praia de Carcavelos é uma surpresa apenas pela grande capacidade de mobilização que conseguiu – cerca de 500 jovens – mas é a consequência natural do alastramento destas organizações delinquentes. Desde os meados dos anos 90 que as autoridades policiais e os governos conhecem o problema. O seu crescimento disparou a partir de 98 e hoje são uma realidade incontornável no quadro da criminalidade metropolitana.
As manifestações mais visíveis aconteceram inicialmente em comboios, depois nas grandes superfícies, agora nas praias.
E certo que os crimes cometidos por estes delinquentes são vulgarmente bagatelas penais. Crimes de danos e associados ao consumo de drogas. Mas são os grandes potenciadores da insegurança graças aos efeitos subjectivos que provocam na apreensão dos níveis de ameaça a que estamos sujeitos. E são também um sintoma de uma doença mais profunda que se agrava conforme o tempo passa: a falta de uma autoridade que ‘perceba’ e leia Lisboa e os concelhos limítrofes à luz da realidade metropolitana. Esta região é responsável por mais de metade da criminalidade do País e a resposta que todos os governos têm à mão é sempre a mesma: reforço policial. A preguiça e a propaganda de mãos dadas. Pensar para além desta mediocridade é difícil e o resultado vai ser o mesmo: haverá uma ou outra praia mais vigiada, comboios mais controlados, mas nem uma nem outra coisa resolvem o essencial: a dissolução dos bandos e a sua cada vez maior emergência. É de política séria que o problema precisa. Os polícias funcionam como aspirinas que aliviam o sintoma mas não resolvem a doença.
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