Com a míngua de criatividade que assola o cinema americano, volta e meia Hollywood crava inspiração à sua inimiga figadal, a televisão. As séries trasladadas do pequeno para o grande ecrã são mais que muitas – ‘Missão Impossível’, ‘Os Vingadores’, ‘O Santo’, etc. Agora, até um desenho animado japonês dos anos 70 – ‘Speed Racer’ – foi reciclado em superprodução cinematográfica. E, nos cinemas lusos, estreou-se na quinta-feira ‘O Sexo e a Cidade’. ‘Sex and the City’ é um marco da TV.
Na sua primeira temporada, em 1998, enfeitiçou 10 milhões de espectadores só nos EUA e alçou a rede HBO ao pódio criativo da televisão americana. OK, ao contrário de ‘Os Sopranos’ (o torrãozinho da crítica) as peripécias das quatro trintonas desbocadas e consumistas nunca foram uma unanimidade (talvez por elas parecerem algo aterrorizantes aos heterossexuais masculinos – entre os quais, naturalmente, eu avulto). Mas a série transcendeu o nicho televisivo: em cinco anos de exibição, tornou-se um dos maiores fenómenos sociológicos e culturais (feminismo-existencialismo-pop) do século XXI. Até gerou um clone, que a NBC está a transmitir desde Fevereiro: ‘Lipistick Jungle’. Com Brooke Shields no elenco, é da mesma autora de ‘O Sexo e a Cidade’, Candice Bushnell, e arrancará oportunamente na TV Cabo.
Desta vez, as donas de casa esperançosas são quarentonas (mas tão bem cuidadas como porcelana de Sévrès). N‘O Sexo e a Cidade’, a carne e o espírito concorriam taco a taco. Certo, as quatro mosqueteiras falavam como camionistas numa tasca (incluindo sexo oral e anal), mas, no fundo (ops!), demandavam sobretudo ‘o verdadeiro amor’ – mesmo a predadora insaciável que era Samantha. E o aspecto mais tocante dos episódios residia na amizade entre as protagonistas, que nem um Brad Pitt de tanga conseguiria fender.
O tempo passou, ‘O Sexo e a Cidade’ televisivo acabou e a própria HBO entrou num período de (sem trocadilho, juro) vacas magras. Depois de várias colheitas sofríveis, os mimos migraram para canais como Showtime (lar de ‘Dexter’ e ‘Californication’) e FX (‘Damages’, ‘Dirty’). A neura foi tanta que a HBO marcou uma consulta no psicanalista. Mais precisamente, ‘Terapia’, que vem aí não tarda nada, com Gabriel Byrne (‘Os Suspeitos do Costume’) a bordo, no papel de um psicólogo. Vi um episódio e lambi os beiços. Os diálogos são tão inteligentes que soam implausíveis – ninguém tem tanta presença de espírito na vida real. Mas se todos os males da TV fossem esse… Como? Ah, o filme ‘O Sexo e a Cidade’? Confidencialmente, uma caca (rapazes, se têm amor à vida, não digam isto aos vossos raiozinhos de sol).
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