Afinal, o futebol dos ricos, da agiotagem da FIFA, dos especuladores imobiliários, o futebol de corruptos não é brasileiro. Nunca o foi. Pelé enganou-se. Quem o adorava ver jogar, quem o tornou ídolo, não dissociava essa ideia da ‘peladinha’, dos golos com pés nus, dos campos de lixo e pobreza de favelas e vilas fustigadas pela miséria da qual os ídolos se libertavam para a magia do drible, do passe, do golo. O Brasil que hoje se levanta, em sucessivas vagas de protesto, é o caipira, o ‘minino do Rio’, que cresceu pé de descalço e camisola do ‘escrete’ por não haver outra à mão. É o Brasil que não conhece nem o PIB, nem inflação, que protesta e samba, que clama justiça e grita contra iniquidade, corrupção, compadrio e uma classe dirigente que, durante décadas, das suas fortalezas, cercadas de milhões de pobres, se prostituiu, enriqueceu e embeveceu no próprio poder.
Levantou-se um milhão de pessoas pelo Brasil contra a injustiça. Acredito nestes números. Mas perdoem-me a ironia. Se este milhão está certo para cidades como S. Paulo e Rio de Janeiro, no seu conjunto com mais de trinta milhões, foi protesto fraco, pois, segundo os sindicalistas portugueses, aqui levantou-se igual número. E fico sem saber em que acreditar. Se no pequeno milhão brasileiro, se no grande milhão nacional.
Porém, ninguém duvide que esta rebelião que cada vez mais afasta os partidos políticos da fome de justiça é um repetido aviso, lá como cá, que não é possível continuar a fazer de conta que não se vê, que entra pelos olhos: ou o sistema partidário se reformula da dita esquerda à dita direita ou, então, não demorará que os democratas que usurparam com mecanismos estatutários o poder do povo sejam objeto de afrontas e violência de maior audácia. Ficam avisos por todo o mundo. Os valores da democracia implicam fome de justiça e de mais justiça. E ignorar isto é ignorar os avisos de Elis Regina: ‘Me disseram, porém/ que eu viesse aqui/ para pedir de romaria e prece/ paz nos desaventos/ Como não sei rezar/ só queria deixar/ meu olhar, meu olhar, meu olhar.’
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt